Ciência em Diálogo com o Futuro: A Academia de Ciências da Bahia abre 2026 com conferência sobre Inteligência Artificial

A Academia de Ciências da Bahia abre 2026 com uma agenda que combina reflexão estratégica e presença pública. A conferência de 11 de março, com Virgilio Almeida, integra um calendário que começa a ser estruturado ainda em janeiro, quando a Diretoria prevê ajustar a frequência das reuniões e discutir a proposta de calendário anual e o encaminhamento da ACB como Instituição de Utilidade Pública, em reunião do Conselho Deliberativo marcada para 21 de janeiro. O gesto inaugural, portanto, não é apenas simbólico: ele se ancora em planejamento institucional.
Engenheiro eletricista formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, com mestrado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e doutorado pela Vanderbilt University, Almeida construiu uma trajetória marcada pela articulação entre pesquisa de ponta e reflexão pública. Professor Emérito da UFMG e pesquisador com bolsa de produtividade 1A do CNPq, dedica-se a temas como sistemas distribuídos em larga escala, infraestrutura digital e governança da internet — áreas que deixaram de ser especializadas para se tornarem estruturais no cotidiano das democracias.
Seu reconhecimento extrapola fronteiras. Membro da Academia Brasileira de Ciências, da Academia Nacional de Engenharia e da The World Academy of Sciences, foi agraciado com a Ordem Nacional do Mérito Científico e com distinções como a Medalha da Inconfidência. Atuou ainda como Faculty Associate do Berkman Klein Center for Internet & Society, da Harvard University, onde aprofundou estudos sobre internet e sociedade. Em diferentes espaços — da academia aos meios de comunicação — tem defendido que inteligência artificial e infraestrutura digital são também questões éticas, políticas e sociais.
Ao trazê-lo para a abertura do ano, a Academia parece apostar numa discussão que ultrapassa o entusiasmo tecnológico. A inteligência artificial surge, aqui, como lente para examinar desigualdades, modelos de governança, capacidade científica nacional e o papel das instituições no desenho do futuro digital. Não se trata apenas de inovação, mas de responsabilidade pública diante de sistemas que medem, modelam e influenciam comportamentos em larga escala.
O que esperar de 2026
Fevereiro será dedicado à engrenagem interna da Academia. Estão previstas reuniões da Diretoria, além da escolha da Comissão de Seleção e da Comissão de Ética, ambas com votação e aprovação pela Assembleia. Trata-se de um movimento importante para garantir legitimidade aos processos que se desdobram nos meses seguintes, especialmente no que diz respeito à admissão de novos membros e à consolidação de critérios éticos. A abertura oficial, em março, dialoga com essa preparação: a inteligência artificial entra em pauta no mesmo momento em que a instituição reafirma seus mecanismos de governança.
Após a conferência “Inteligência Artificial: Transformações na Sociedade e na Ciência”, em 11 de março com diversas ações internas. No dia 28, abre-se ainda a convocatória para Pesquisadores Emergentes, ao lado da previsão de webinário sobre os programas INCITE, em colaboração com a FAPESB. O mês termina com discussão confirmada sobre o Plano Nacional de Educação, com base em documento de Dora e Verhine, no dia 30.
Para maio, está previsto o centenário de Milton Santos (dia 3) e debates sobre financiamento sustentável e previsível da ciência, com convidados a definir. Ao longo do ano, surgem temas que revelam uma preocupação sistêmica: governança de dados, privacidade e uso responsável de IA; formação, atração e retenção de talentos científicos; integração da ciência com a sociedade; comunicação científica e combate à desinformação; clima, biodiversidade e saúde planetária. Em julho, ocorrerá o III Seminário ACB de Pesquisadores Emergentes, inicialmente agendado para o dia 8, e em setembro estão previstos a posse de novos membros e atividades relacionadas à Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, com foco em “Mulheres na Ciência”. Outubro aponta para debate sobre valorização social da ciência na esfera política.
O conjunto do calendário indica que 2026 não será apenas um ano de eventos, mas de posicionamento institucional. A Academia articula temas estruturais — financiamento, educação, governança digital, clima, desinformação — com ritos internos de renovação e reconhecimento de novos quadros. Ao iniciar o ano discutindo inteligência artificial e seus impactos sociais, e ao longo dos meses conectar ciência a políticas públicas, educação básica, sustentabilidade e comunicação, a ACB sinaliza que pretende ocupar um espaço ativo no debate público baiano e nacional. A expectativa é de uma programação que combine densidade acadêmica, intervenção qualificada e diálogo com a sociedade — um ano em que a ciência será menos bastidor e mais protagonista.
Por Karina de Souza