Do código ao design de soluções: a Engenharia de Software e a IA

“O novo papel do engenheiro de software: ele não tá mais preocupado apenas em escrever código, mas em usar IA para projetar soluções melhores. Ele passa a ser um designer de soluções, um curador, um arquiteto, um tomador de decisões”, com essa fala, o pesquisador Ivan Machado buscou responder a pergunta que norteou o webinário “Qual o futuro da Engenharia de Software com o avanço da IA?”, realizado no Canal do YouTube da Academia de Ciências da Bahia, na tarde do último dia 6 de agosto. O evento, que já está disponível, é o segundo encontro virtual promovido pela instituição com o objetivo de debater as profundas transformações provocadas pela Inteligência Artificial nas mais diversas esferas do conhecimento e da sociedade.
Sob a mediação do professor Eduardo Almeida e com as análises de Ivan Machado e do também pesquisador Manoel Mendonça, a conversa expôs como uma disciplina nascida no final dos anos 1960 para impor rigor, método e lógica ao caos da programação inicial vive hoje uma virada de chave sem precedentes. A ascensão vertiginosa dos modelos de linguagem e dos agentes autônomos retira do engenheiro a carga do trabalho braçal da sintaxe, mas exige dele uma maturidade conceitual muito maior.
Para Ivan Machado, o avanço da IA não decreta o fim do desenvolvedor, mas reposiciona sua utilidade no ecossistema técnico. A capacidade de digitar linhas de código com rapidez deixa de ser o grande diferencial do profissional, dando lugar ao pensamento crítico e à habilidade de formular os problemas corretos. “Hoje o código é commodity. A IA gera a estrutura básica em segundos. O valor real do engenheiro passa a ser a capacidade de supervisionar esses modelos, entender os limites do problema e garantir que a solução atenda às necessidades humanas sem alucinar”, pontuou Machado durante a transmissão, destacando que a tecnologia deve atuar como um amplificador da cognição humana, e não como sua substituta cega.
Complementando a visão, Manoel Mendonça enfatizou que a mudança exige uma reformulação na própria formação dos cientistas da computação, que agora não apenas deve primar por somente por um conhecimento técnico das ferramentas. O aprendizado técnico precisa migrar da simples memorização de rotinas para a compreensão profunda de arquitetura e design de sistemas.“Se ensinamos o estudante apenas a escrever a sintaxe da linguagem, a IA já faz isso melhor do que ele. O que precisamos ensinar agora é a julgar o código, a questionar a solução entregue e a entender as implicações daquele software no mundo real”, refletiu Mendonça, ao considerar que as questões biológicass impedem que o humano entre em competição com certas habilidades que a IA possui.
Apesar do tom otimista em relação aos ganhos de produtividade, a mesa não se furtou a discutir as aspectos negativos dessa aceleração desenfreada. Entre as maiores preocupações trazidas pelo cientista Manoel Mendonça está o fenômeno da amnésia prática — o risco de novas gerações aceitarem respostas automatizadas sem compreender a mecânica que opera no subsolo do sistema. “Existe um perigo silencioso que é o atrofiamento do raciocínio base. Se o profissional se acostuma a apenas colar o código gerado sem entender a teoria por trás, criamos uma dependência cega. Quando o sistema falhar — e ele vai falhar —, ninguém saberá como consertar”, alertou Mendonça, cunhando o termo “dívida técnica cognitiva” para definir o acúmulo de softwares complexos gerados sem a devida compreensão humana.
Outro ponto levantado pelos pesquisadores diz respeito à ilusão da gratuidade ou da simplicidade do acesso. A infraestrutura necessária para rodar esses modelos gigantescos impõe um custo financeiro e ambiental massivo às corporações, exigindo um cálculo racional de custo-benefício antes de se adotar a automação de forma indiscriminada. Este assunto do impacto ambiental das redes foi explorado em um webinário liderado pelo acadêmico André Lemos, em 2025. Assista aqui.
Da bancada acadêmica ao impacto social
A reta final do encontro abriu espaço para reflexões sobre o impacto da IA na integridade da própria ciência e na formação de base. O presidente da Academia de Ciências da Bahia, Manoel Barral Netto, interveio no debate para destacar a urgência de encarar a ferramenta com letramento digital e senso de responsabilidade social, desde a educação básica até os programas de pós-graduação.
“A Inteligência Artificial já está diagnosticando doenças, influenciando decisões judiciais e, no nosso meio, inundando os eventos científicos com milhares de artigos gerados automaticamente. Cabe à ciência não a rejeição ingênua, mas o estabelecimento do rigor ético e do julgamento crítico”, ressaltou Barral Netto. O evento aponta que a tecnologia pode encurtar o tempo entre a ideia e a execução, mas a responsabilidade do desenho, a elegância da arquitetura e o sentido ético da engenharia continuam dependendo, irredutivelmente, do fator humano.
Texto Karina Costa. *Esta reportagem tem ajuda da IA para revisão.