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100 anos de Luís Henrique Dias Tavares (1926–2020) e a memória de uma guerra

Luís Henrique Dias Tavares faria 100 anos amanhã, em 25 de janeiro de 2026. Historiador baiano, natural de Nazaré das Farinhas, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e autor de uma obra extensa dedicada à formação histórica do Brasil, ele passou boa parte da vida insistindo em um ponto incômodo: a Independência não foi pacífica em todo o território nacional — e, na Bahia, foi guerra.

Em entrevista concedida à revista Pesquisa FAPESP, há 20 anos, ele afirmou: “Entenda-se: guerra, aqui, não é figura de retórica. É guerra mesmo, com sua triste substância de violência desenfreada, dores, legião de feridos, mortes, destruição de edificações, colapso dos serviços urbanos etc., travada nos moldes das guerras do começo do século XIX…”

Conduzida pela jornalista e Acadêmica Mariluce Moura, na entrevista, publicada na edição 19, de janeiro de 2006,  Tavares revisita a luta travada entre 1822 e 1823, no contexto da Independência do Brasil proclamada em 1822. Mais do que reconstituir fatos, ele questiona o próprio modo como a história foi ensinada e transmitida ao longo do tempo.

Para o historiador, que faleceu em 22 de junho de 2020, o desconhecimento nacional sobre o conflito baiano não era casual. Resultava de uma combinação entre desigualdades regionais e escolhas narrativas que privilegiaram determinados centros políticos e econômicos do país. Enquanto em outras regiões a Independência foi construída como acordo ou transação, na Bahia ela se deu sob fogo cruzado, com mortes, destruição e empobrecimento prolongado da província.

Ao longo da conversa, Tavares rejeita a ideia de que se tratou de um episódio periférico no processo histórico brasileiro do início do século XIX. Para ele, a guerra na Bahia foi parte constitutiva do processo de independência brasileira — ainda que tenha sido empurrada para as margens da memória oficial. Personagens populares, como Maria Quitéria de Jesus (1792–1853) — combatente que se alistou disfarçada no Exército Libertador —, João das Botas, marinheiro que atuou na organização de ações navais durante o conflito, e o Corneteiro Lopes, jovem soldado conhecido por tocar o alarme em momentos decisivos das batalhas, surgem como exemplos de uma participação social ampla, que envolveu soldados, civis, mulheres e homens comuns entre 1822 e 1823.

O tom da entrevista combina precisão histórica e clareza narrativa, marcas recorrentes do trabalho de Tavares. Formado em História pela UFBA e com passagem pelo jornalismo, ele nunca separou completamente o rigor acadêmico da preocupação com a linguagem. Seus textos evitam o jargão excessivo e apostam na exposição direta dos conflitos, sem atenuações retóricas.

Autor de mais de vinte livros publicados entre as décadas de 1950 e 2010, Luís Henrique Dias Tavares dedicou-se sobretudo à história da Bahia, explorando temas que vão do período colonial às tensões políticas do século XIX. Seu trabalho ajudou a consolidar uma historiografia atenta às especificidades regionais, sem perder de vista os processos nacionais mais amplos.

Falecido em 2020, aos 94 anos, de causa não divulgada, Tavares deixou uma obra que segue atual não apenas pelo que revela sobre o passado, mas pelo que ensina sobre o próprio ofício do historiador: o de confrontar silêncios, revisar consensos e recolocar perguntas incômodas no centro do debate público.

Neste centenário, sua entrevista de 2006 permanece como um lembrete claro de que a história do Brasil não cabe em uma única narrativa — e de que algumas guerras só desaparecem quando se decide não mais falar delas.

Fontes: 

MOURA, Mariluce. Uma guerra na Bahia. Pesquisa FAPESP, São Paulo, n. 129, nov. 2006. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/uma-guerra-na-bahia/. Acesso em: 23 jan. 2026.

CORREIO 24 HORAS. Centenário de Luís Henrique Dias Tavares celebra um dos maiores historiadores da Bahia. Salvador, jan. 2026. Disponível em: https://www.correio24horas.com.br/asteriscao/centenario-de-luis-henrique-dias-tavares-celebra-um-dos-maiores-historiadores-da-bahia-0126. Acesso em: 24 jan. 2026.

WIKIPÉDIA. Luís Henrique Dias Tavares. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Henrique_Dias_Tavares. Acesso em: 24 jan. 2026.

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