{"id":8041,"date":"2026-01-24T19:06:36","date_gmt":"2026-01-24T22:06:36","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/?p=8041"},"modified":"2026-01-24T19:09:47","modified_gmt":"2026-01-24T22:09:47","slug":"100-anos-de-luis-henrique-dias-tavares-1926-2020-e-a-guerra-que-insistiu-em-fazer-lembrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/2026\/01\/24\/100-anos-de-luis-henrique-dias-tavares-1926-2020-e-a-guerra-que-insistiu-em-fazer-lembrada\/","title":{"rendered":"100 anos de Lu\u00eds Henrique Dias Tavares (1926\u20132020) e a mem\u00f3ria de uma guerra"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Lu\u00eds Henrique Dias Tavares faria 100 anos amanh\u00e3, em 25 de janeiro de 2026. Historiador baiano, natural de Nazar\u00e9 das Farinhas, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e autor de uma obra extensa dedicada \u00e0 forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do Brasil, ele passou boa parte da vida insistindo em um ponto inc\u00f4modo: a Independ\u00eancia n\u00e3o foi pac\u00edfica em todo o territ\u00f3rio nacional \u2014 e, na Bahia, foi guerra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em entrevista concedida \u00e0 revista Pesquisa FAPESP, h\u00e1 20 anos, ele afirmou: \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Entenda-se: guerra, aqui, n\u00e3o \u00e9 figura de ret\u00f3rica. \u00c9 guerra mesmo, com sua triste subst\u00e2ncia de viol\u00eancia desenfreada, dores, legi\u00e3o de feridos, mortes, destrui\u00e7\u00e3o de edifica\u00e7\u00f5es, colapso dos servi\u00e7os urbanos etc., travada nos moldes das guerras do come\u00e7o do s\u00e9culo XIX\u2026\u201d<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Conduzida pela jornalista e Acad\u00eamica <\/span><b>Mariluce Moura<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, na entrevista, publicada na edi\u00e7\u00e3o 19, de janeiro de 2006,\u00a0 Tavares revisita a luta travada entre <\/span><b>1822 e 1823<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, no contexto da Independ\u00eancia do Brasil proclamada em 1822. Mais do que reconstituir fatos, ele questiona o pr\u00f3prio modo como a hist\u00f3ria foi ensinada e transmitida ao longo do tempo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para o historiador, que faleceu em 22 de junho de 2020, o desconhecimento nacional sobre o conflito baiano n\u00e3o era casual. Resultava de uma combina\u00e7\u00e3o entre desigualdades regionais e escolhas narrativas que privilegiaram determinados centros pol\u00edticos e econ\u00f4micos do pa\u00eds. Enquanto em outras regi\u00f5es a Independ\u00eancia foi constru\u00edda como acordo ou transa\u00e7\u00e3o, na Bahia ela se deu sob fogo cruzado, com mortes, destrui\u00e7\u00e3o e empobrecimento prolongado da prov\u00edncia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao longo da conversa, Tavares rejeita a ideia de que se tratou de um epis\u00f3dio perif\u00e9rico no processo hist\u00f3rico brasileiro do in\u00edcio do s\u00e9culo XIX. Para ele, a guerra na Bahia foi parte constitutiva do processo de independ\u00eancia brasileira \u2014 ainda que tenha sido empurrada para as margens da mem\u00f3ria oficial. Personagens populares, como <\/span><b>Maria Quit\u00e9ria de Jesus (1792\u20131853)<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2014 combatente que se alistou disfar\u00e7ada no Ex\u00e9rcito Libertador \u2014, <\/span><b>Jo\u00e3o das Botas<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, marinheiro que atuou na organiza\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es navais durante o conflito, e o <\/span><b>Corneteiro Lopes<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, jovem soldado conhecido por tocar o alarme em momentos decisivos das batalhas, surgem como exemplos de uma participa\u00e7\u00e3o social ampla, que envolveu soldados, civis, mulheres e homens comuns entre 1822 e 1823.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O tom da entrevista combina precis\u00e3o hist\u00f3rica e clareza narrativa, marcas recorrentes do trabalho de Tavares. Formado em Hist\u00f3ria pela UFBA e com passagem pelo jornalismo, ele nunca separou completamente o rigor acad\u00eamico da preocupa\u00e7\u00e3o com a linguagem. Seus textos evitam o jarg\u00e3o excessivo e apostam na exposi\u00e7\u00e3o direta dos conflitos, sem atenua\u00e7\u00f5es ret\u00f3ricas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Autor de mais de vinte livros publicados entre as d\u00e9cadas de 1950 e 2010, Lu\u00eds Henrique Dias Tavares dedicou-se sobretudo \u00e0 hist\u00f3ria da Bahia, explorando temas que v\u00e3o do per\u00edodo colonial \u00e0s tens\u00f5es pol\u00edticas do s\u00e9culo XIX. Seu trabalho ajudou a consolidar uma historiografia atenta \u00e0s especificidades regionais, sem perder de vista os processos nacionais mais amplos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Falecido em <\/span><b>2020<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, aos <\/span><b>94 anos<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, de causa n\u00e3o divulgada, Tavares deixou uma obra que segue atual n\u00e3o apenas pelo que revela sobre o passado, mas pelo que ensina sobre o pr\u00f3prio of\u00edcio do historiador: o de confrontar sil\u00eancios, revisar consensos e recolocar perguntas inc\u00f4modas no centro do debate p\u00fablico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Neste centen\u00e1rio, sua entrevista de 2006 permanece como um lembrete claro de que a hist\u00f3ria do Brasil n\u00e3o cabe em uma \u00fanica narrativa \u2014 e de que algumas guerras s\u00f3 desaparecem quando se decide n\u00e3o mais falar delas.<\/span><\/p>\n<p><strong>Fontes:\u00a0<\/strong><\/p>\n<p data-start=\"235\" data-end=\"423\">MOURA, Mariluce. <strong data-start=\"252\" data-end=\"275\">Uma guerra na Bahia<\/strong>. <em data-start=\"277\" data-end=\"294\">Pesquisa FAPESP<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 129, nov. 2006. Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link\" href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/uma-guerra-na-bahia\/?utm_source=chatgpt.com\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"341\" data-end=\"397\">https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/uma-guerra-na-bahia\/<\/a>. Acesso em: 23 jan. 2026.<\/p>\n<p>CORREIO 24 HORAS. <strong data-start=\"654\" data-end=\"744\">Centen\u00e1rio de Lu\u00eds Henrique Dias Tavares celebra um dos maiores historiadores da Bahia<\/strong>. Salvador, jan. 2026. Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link\" href=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/asteriscao\/centenario-de-luis-henrique-dias-tavares-celebra-um-dos-maiores-historiadores-da-bahia-0126?utm_source=chatgpt.com\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"782\" data-end=\"920\">https:\/\/www.correio24horas.com.br\/asteriscao\/centenario-de-luis-henrique-dias-tavares-celebra-um-dos-maiores-historiadores-da-bahia-0126<\/a>. Acesso em: 24 jan. 2026.<\/p>\n<p data-start=\"1092\" data-end=\"1239\">WIKIP\u00c9DIA. <strong data-start=\"1103\" data-end=\"1133\">Lu\u00eds Henrique Dias Tavares<\/strong>. Dispon\u00edvel em: <a class=\"decorated-link\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Lu%C3%ADs_Henrique_Dias_Tavares?utm_source=chatgpt.com\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"1150\" data-end=\"1213\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Lu%C3%ADs_Henrique_Dias_Tavares<\/a>. Acesso em: 24 jan. 2026.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Henrique Dias Tavares faria 100 anos amanh\u00e3, em 25 de janeiro de 2026. 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