{"id":3054,"date":"2023-03-10T04:59:07","date_gmt":"2023-03-10T07:59:07","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/?p=3054"},"modified":"2023-03-12T13:54:07","modified_gmt":"2023-03-12T16:54:07","slug":"a-mulher-so-se-torna-tema-de-pesquisa-quando-ela-mesma-comeca-a-fazer-pesquisas-afirma-historiadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/2023\/03\/10\/a-mulher-so-se-torna-tema-de-pesquisa-quando-ela-mesma-comeca-a-fazer-pesquisas-afirma-historiadora\/","title":{"rendered":"A mulher s\u00f3 se torna tema de pesquisa quando ela mesma come\u00e7a a fazer pesquisas, afirma historiadora"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3055\" src=\"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/ACB-Mulher-Jornal-USP-300x158.webp\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"158\" srcset=\"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/ACB-Mulher-Jornal-USP-300x158.webp 300w, https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/ACB-Mulher-Jornal-USP-1024x538.webp 1024w, https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/ACB-Mulher-Jornal-USP-768x403.webp 768w, https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/ACB-Mulher-Jornal-USP.webp 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao longo da hist\u00f3ria, as mulheres foram dispondo de seus direitos a passos lentos, como trabalhar, votar, se divorciar, entre tantos outros. Para participar ativamente e se tornar tema central de estudos acad\u00eamicos n\u00e3o seria diferente. A trajet\u00f3ria das mulheres foi marcada por uma progress\u00e3o gradual at\u00e9 que elas fossem reconhecidas como dignas de serem pesquisadas e de produzirem pesquisa. A historiadora Branca Zilberleib, somando-se ao grupo das mulheres que contrariaram esse processo, estudou personalidades femininas \u00e0 frente de seu tempo para produzir sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH) da USP.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Intitulada A mulher como problema de pesquisa em Hist\u00f3ria: emerg\u00eancia de estudos sobre mulheres e g\u00eanero na historiografia brasileira recente (1973-2001), a pesquisa foi realizada entre 2019 e 2022, com a orienta\u00e7\u00e3o do professor Miguel Soares Palmeira, da FFLCH. \u201cEu queria saber como a mulher passou a estar no horizonte das perguntas que os historiadores fazem para entender o passado\u201d, explica a historiadora. Depois da defini\u00e7\u00e3o do tema, Branca seguiu para o levantamento de disserta\u00e7\u00f5es, teses e textos resultantes de pesquisas de hist\u00f3ria, feitos ap\u00f3s a d\u00e9cada de 1970, que tratassem centralmente de mulheres.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Branca analisou as trajet\u00f3rias de estudiosas como Maria Odila Leite da Silva Dias, Miriam Lifchitz Moreira Leite, Rachel Soihet, Margareth Rago e Joana Maria Pedro, importantes refer\u00eancias na constitui\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o do campo de estudos de Hist\u00f3ria das Mulheres e Rela\u00e7\u00f5es de G\u00eanero. Entre os temas desenvolvidos por essas estudiosas, est\u00e3o as atividades de mulheres em ind\u00fastrias aliment\u00edcias e t\u00eaxteis, em trabalhos informais, relacionamentos amorosos, formas de viol\u00eancia feminina e muitos outros.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O recorte temporal estabelecido relacionou trabalhos em que as mulheres passaram a ser objeto de estudos de hist\u00f3ria, concomitante ao per\u00edodo da segunda onda do feminismo. O movimento feminista, que surgiu nos Estados Unidos na segunda metade da d\u00e9cada de 1960, se espalhou para diversos pa\u00edses industrializados entre 1968 e 1977, como o Brasil. A reivindica\u00e7\u00e3o central do movimento \u00e9 a luta pela liberta\u00e7\u00e3o e por direitos da mulher, um processo que transformou o conjunto de estudos de hist\u00f3ria no Brasil a partir da inclus\u00e3o de uma nova perspectiva feminina.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A d\u00e9cada de 1970 tamb\u00e9m acompanhou a expans\u00e3o das universidades, processo que alavancou a entrada de mulheres nestes espa\u00e7os. \u201cAs mulheres terem se tornado uma for\u00e7a pol\u00edtica de relev\u00e2ncia, assim como estarem dentro da universidade como pesquisadoras e professoras, permitiu que elas se tornassem tamb\u00e9m objeto de pesquisas de \u00e1reas diversas\u201d, explica Branca em seu mestrado. Em outras palavras, \u201ca mulher s\u00f3 se torna um objeto de pesquisa quando ela mesma come\u00e7a a fazer pesquisas\u201d, complementa a pesquisadora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">UMA HIST\u00d3RIA RECENTE<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ap\u00f3s observar o material reunido, Branca constatou que o campo de estudos de hist\u00f3ria das mulheres e das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero \u00e9 muito jovem. \u201cNos anos 1970, eu encontrei estudos isolados. Inicialmente n\u00e3o h\u00e1 um campo de estudos dedicado a esse tema, com pessoas, conceitos, congressos e encontros\u201d, afirma ela. \u201cS\u00f3 vai aparecer um conjunto de pessoas dedicadas a esse tema a partir da d\u00e9cada de 1990, ent\u00e3o \u00e9 muito recente\u201d, lamenta Branca.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Branca observou que o atraso da hist\u00f3ria ao falar de mulheres se d\u00e1, entre outros motivos, pela diferen\u00e7a de recursos recebidos para financiar pesquisas sobre esse tema. Por\u00e9m, de acordo com a pesquisadora, esse processo foi essencial para colocar a tem\u00e1tica na agenda de estudos de hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">RESIST\u00caNCIA FEMININA<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De maneira geral, a produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica do momento era pensada e criada por mulheres, com uma participa\u00e7\u00e3o \u00ednfima de homens em suas autorias. \u201cS\u00e3o historiadoras escrevendo sobre mulheres. E, quando esses trabalhos formam um campo de estudo, essas mulheres tamb\u00e9m se tornam as especialistas no assunto\u201d, aponta Branca.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No entanto, o machismo existente na estrutura social da \u00e9poca interferiu no reconhecimento dos trabalhos produzidos. \u201cExiste uma disputa profissional dessas historiadoras, afinal elas est\u00e3o emplacando um campo de estudo, em alguma medida, sobre elas mesmas. Junto a isso, h\u00e1 um machismo que impede o reconhecimento da import\u00e2ncia dessa tem\u00e1tica e dos debates que foram feitos a esse respeito\u201d, afirma a pesquisadora da FFLCH. Na pesquisa, ela cita balan\u00e7os historiogr\u00e1ficos em que as historiadoras dizem n\u00e3o serem vistas como parceiras plenas dos historiadores.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar disso, a busca pela inclus\u00e3o das mulheres nos estudos historiogr\u00e1ficos se tornou quase uma miss\u00e3o social. \u201cO n\u00e3o reconhecimento das mulheres como sujeitos dignos de serem historiados \u00e9 o mote a partir do qual tais estudos come\u00e7aram a se fazer\u201d, conta Branca em seu mestrado. \u201cH\u00e1 um uso estrat\u00e9gico feito na invoca\u00e7\u00e3o de uma falta de reconhecimento, um motivo aglutinador e mobilizador para as pesquisadoras do campo e que permanece vigente\u201d, complementa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outra estrat\u00e9gia utilizada por muitas pesquisadoras foi a de se unir a homens influentes na produ\u00e7\u00e3o de estudos acad\u00eamicos, a fim de consolidar suas pr\u00f3prias ideias. \u201cQuando se busca introduzir uma tem\u00e1tica nova, \u00e9 preciso se aliar \u00e0queles que t\u00eam poder em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de pesquisas\u201d, observa Branca. \u201cA dimens\u00e3o pr\u00e1tica de um desenvolvimento te\u00f3rico tem uma s\u00e9rie de negocia\u00e7\u00f5es por tr\u00e1s, com alian\u00e7as que est\u00e3o sendo postas\u201d, completa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">OLHANDO DE BAIXO<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em entrevista ao Jornal da USP, Branca explica que houve uma vertente da historiografia, chamada Hist\u00f3ria Vista de Baixo, que se refere \u00e0 hist\u00f3ria de oper\u00e1rios, mulheres, trabalhadores informais e pessoas comuns em suas rotinas di\u00e1rias. \u201c\u00c9 olhar como as popula\u00e7\u00f5es pensam, como se relacionam e se manifestam no espa\u00e7o p\u00fablico e privado\u201d, explica a pesquisadora.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nesse sentido, a identifica\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o feminina na hist\u00f3ria tamb\u00e9m se deu por essa busca pelos \u201cde baixo\u201d, atrav\u00e9s da an\u00e1lise de contextos cotidianos em que as mulheres estiveram inseridas. \u201cAlgumas historiadoras foram estudar mulheres que s\u00e3o \u2018de baixo\u2019, das classes populares\u201d, conta a pesquisadora da FFLCH.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mais informa\u00e7\u00f5es: brancazilberleib@gmail.com\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte: Jornal da USP &#8211; Texto: Camilly Rosaboni<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Foto: Jornal da USP &#8211; Arte: Carolina Borin Garcia<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo da hist\u00f3ria, as mulheres foram dispondo de seus direitos a passos lentos, como trabalhar, votar, se divorciar, entre tantos outros. 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