{"id":2859,"date":"2022-12-27T23:15:49","date_gmt":"2022-12-28T02:15:49","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/?p=2859"},"modified":"2022-12-29T16:03:03","modified_gmt":"2022-12-29T19:03:03","slug":"entre-sapos-cantantes-e-bromelias-gigantes-cientistas-descobrem-novas-especies-em-montanhas-isoladas-da-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/2022\/12\/27\/entre-sapos-cantantes-e-bromelias-gigantes-cientistas-descobrem-novas-especies-em-montanhas-isoladas-da-amazonia\/","title":{"rendered":"Entre sapos cantantes e brom\u00e9lias gigantes: cientistas descobrem novas esp\u00e9cies em montanhas isoladas da Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-2860\" src=\"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Pico-do-Imeri-Foto-HertonEscobarUSP-Imagens-300x200.webp\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Pico-do-Imeri-Foto-HertonEscobarUSP-Imagens-300x200.webp 300w, https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Pico-do-Imeri-Foto-HertonEscobarUSP-Imagens-768x512.webp 768w, https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Pico-do-Imeri-Foto-HertonEscobarUSP-Imagens.webp 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEstamos preenchendo uma p\u00e1gina em branco na hist\u00f3ria da biodiversidade brasileira\u201d, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">diz o professor Miguel Trefaut Rodrigues, da USP, l\u00edder da expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 Serra do Imeri.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cFiquem com os ouvidos ligados. Assim que o primeiro sapo cantar a gente sai; significa que a chuva parou\u201d, anuncia o professor Miguel Trefaut Rodrigues, do Instituto de Bioci\u00eancias (IB) da USP, enquanto espia a tempestade pela janela da barraca. Ao lado dele, outros quatro pesquisadores aguardam a serenata de anf\u00edbios deitados sobre camas de campanha do Ex\u00e9rcito brasileiro, acompanhados de dois jornalistas e dois militares. Todos sujos e cansados, por\u00e9m ansiosos para voltar ao trabalho em meio \u00e0s brom\u00e9lias gigantes e florestas nebulares do lado de fora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Estamos a 1.875 metros de altitude na Serra do Imeri, uma cadeia isolada de montanhas no extremo norte do Amazonas. Chuvas fortes castigam o acampamento quase todos os dias, e a umidade do ar dificilmente cai abaixo de 90%. O ch\u00e3o da barraca \u00e9 um grande charco de lama preta e grudenta, que se agarra a tudo e a todos que ousem pisar sobre ela. \u00c9 praticamente imposs\u00edvel se manter limpo, mas ningu\u00e9m reclama. Essa \u00e9 uma viagem dos sonhos para qualquer cientista que se interessa pela biodiversidade da Amaz\u00f4nia: uma oportunidade rar\u00edssima de se aventurar por uma natureza verdadeiramente intocada e desconhecida, no topo da maior floresta tropical do planeta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A ideia da viagem surgiu em 2018, na sequ\u00eancia de uma expedi\u00e7\u00e3o pioneira ao quase vizinho Pico da Neblina, que resultou em v\u00e1rias descobertas e documentou, pela primeira vez, as plantas e bichos que habitam a montanha mais alta do Brasil (2.995 metros), em 2017. A regi\u00e3o onde estamos agora \u00e9 menos alta, por\u00e9m mais isolada, sem qualquer infraestrutura instalada ou via de acesso preestabelecida. At\u00e9 onde se sabe, ningu\u00e9m jamais colocou os p\u00e9s ali. As comunidades Yanomami do entorno foram consultadas antes da expedi\u00e7\u00e3o e nem mesmo elas conheciam as partes mais elevadas da serra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A miss\u00e3o dos cientistas no topo da montanha \u00e9 relativamente simples: percorrer a maior variedade poss\u00edvel de ambientes e coletar a maior diversidade poss\u00edvel de plantas e animais, para ter uma ideia do que existe ali. Simples de dizer, dif\u00edcil de executar. Passar duas semanas no alto de uma serra, no meio da lama, exposto \u00e0s intemp\u00e9ries da natureza, subindo e descendo trilhas todos os dias (e noites) n\u00e3o \u00e9 nenhum passeio no parque.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cFoi a expedi\u00e7\u00e3o mais dif\u00edcil da minha vida\u201d, diria Rodrigues, ao final da aventura. Aos 69 anos, com um hist\u00f3rico acad\u00eamico e de vida do tamanho da Amaz\u00f4nia, Rodrigues \u00e9 o \u00edcone da equipe e mentor da expedi\u00e7\u00e3o, realizada em parceria com o Ex\u00e9rcito brasileiro e financiada pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp), por meio do programa Biota. Foi ele quem concebeu o projeto e selecionou os integrantes da equipe, incluindo especialistas em r\u00e9pteis e anf\u00edbios (herpetologia), mam\u00edferos (mastozoologia), aves (ornitologia), plantas (bot\u00e2nica) e parasitas (parasitologia). Quatorze pesquisadores ao todo, oriundos da USP, da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (UFSCar), do Jardim Bot\u00e2nico do Rio de Janeiro (JBRJ) e do Centro Nacional de Pesquisas Cient\u00edficas da Fran\u00e7a (CNRS). O Jornal da USP acompanhou toda a expedi\u00e7\u00e3o, realizada entre 2 e 23 de novembro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Desde o in\u00edcio havia a expectativa de que muitas esp\u00e9cies novas seriam descobertas, em fun\u00e7\u00e3o do isolamento biogeogr\u00e1fico da regi\u00e3o. Dito e feito: em 12 dias de trabalho no campo, os pesquisadores coletaram 285 animais, de 41 esp\u00e9cies, das quais 12 (30%), pelo menos, s\u00e3o in\u00e9ditas para a ci\u00eancia (cinco anf\u00edbios, quatro lagartos e tr\u00eas aves). Pode parecer pouco, mas \u00e9 muita coisa. E isso \u00e9 s\u00f3 o que os pesquisadores conseguiram identificar de imediato como coisas novas. \u00c0 medida que o material for sendo examinado em detalhe no laborat\u00f3rio, \u00e9 muito prov\u00e1vel que outras novidades apare\u00e7am, tanto do ponto de vista gen\u00e9tico quanto morfol\u00f3gico.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEm que outro lugar voc\u00ea sai para coletar e volta do campo todos os dias com uma esp\u00e9cie nova na m\u00e3o? Isso aqui \u00e9 incr\u00edvel\u201d, anima-se Rodrigues. \u201cEstamos preenchendo uma p\u00e1gina em branco na hist\u00f3ria da biodiversidade brasileira.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cAqui \u00e9 uma Amaz\u00f4nia diferente. Tem menos bichos e menos diversidade, mas tudo que a gente encontra \u00e9 especial\u201d, diz o ornit\u00f3logo Lu\u00eds F\u00e1bio Silveira, do Museu de Zoologia (MZ) da USP, com os olhos voltados para cima e um par de bin\u00f3culos \u00e0 m\u00e3o, sempre atento \u00e0 movimenta\u00e7\u00e3o das aves no dossel da floresta. Auxiliado pelo bi\u00f3logo Igor Alvarenga, ele coletou 21 esp\u00e9cies de aves na expedi\u00e7\u00e3o, das quais tr\u00eas, pelo menos, s\u00e3o in\u00e9ditas para a ci\u00eancia \u2014 al\u00e9m de outros registros de destaque, como um tucaninho-verde (Aulacorhynchus whitelianus), nunca antes capturado no Brasil. Outras 46 esp\u00e9cies tiveram sua ocorr\u00eancia registrada por meio de canto ou avistamentos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">T\u00e3o importante quanto o n\u00famero de novas esp\u00e9cies, segundo os pesquisadores, \u00e9 o fato de que grande parte das plantas e animais coletados na expedi\u00e7\u00e3o parece ser exclusiva (ou end\u00eamica, na linguagem t\u00e9cnica) dessas forma\u00e7\u00f5es montanhosas do norte da Amaz\u00f4nia, que incluem o Pico da Neblina, o Monte Roraima e outros maci\u00e7os tabulares (chamados tepuis), que se espalham pelo norte do Brasil, sul da Venezuela e oeste da Guiana. Ou seja, s\u00e3o esp\u00e9cies que s\u00f3 existem no topo das montanhas e chapadas dessa regi\u00e3o, conhecida como Pantepui.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Cravada na fronteira do Brasil com a Venezuela, a Serra do Imeri fica no extremo sul dessa regi\u00e3o montanhosa, guardada em territ\u00f3rio brasileiro por uma dupla camada de \u00e1reas protegidas: a Terra Ind\u00edgena Yanomami e o Parque Nacional do Pico da Neblina (mapa acima).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cO n\u00edvel de endemismo aqui \u00e9 muito alto. Essa \u00e9 a grande diferen\u00e7a\u201d, destrincha o professor Taran Grant, tamb\u00e9m do IB-USP, especialista em anf\u00edbios. Como comparativo, antes de embarcar para as montanhas, os pesquisadores passaram uma noite coletando r\u00e9pteis e anf\u00edbios no entorno do aeroporto de Santa Isabel do Rio Negro, 90 quil\u00f4metros (km) ao sul da Serra do Imeri, que o Ex\u00e9rcito utilizou como base de apoio para a expedi\u00e7\u00e3o. Em tr\u00eas horas de trabalho tranquilo, sem muito esfor\u00e7o, coletaram 45 bichos, de 20 esp\u00e9cies diferentes. J\u00e1 na Serra do Imeri, foram necess\u00e1rios cinco dias de trabalho intenso para coletar esse mesmo n\u00famero de animais, com o uso de dezenas de armadilhas e dezenas de horas de busca ativa na natureza. No final, voltaram para casa com 160 bichos, de pelo menos 12 esp\u00e9cies.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A diferen\u00e7a fundamental, conforme anotou Grant, \u00e9 que nenhuma das 20 esp\u00e9cies coletadas em Santa Isabel do Rio Negro era nova, enquanto que quase todas as 12 esp\u00e9cies recolhidas na Serra do Imeri s\u00e3o in\u00e9ditas (quatro lagartos e cinco anf\u00edbios, pelo menos), al\u00e9m de serem todas end\u00eamicas da regi\u00e3o dos tepuis, segundo Rodrigues.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m dos dois professores, a equipe de herpetologia era formada pelos bi\u00f3logos Agust\u00edn Camacho, Antoine Fouquet, Jos\u00e9 Mario Ghellere, Leandro Moraes e Renato Recoder. Nenhuma cobra foi encontrada na expedi\u00e7\u00e3o, apesar de muita procura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No caso dos mam\u00edferos, o n\u00famero de exemplares coletados foi at\u00e9 elevado, mas com uma diversidade de esp\u00e9cies relativamente pequena. De um total de 69 animais capturados, 55 eram de apenas tr\u00eas esp\u00e9cies de ratinhos \u2014 nenhuma delas in\u00e9dita, mas todas elas end\u00eamicas dos tepuis, segundo o professor Alexandre Percequillo, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, que comp\u00f4s a equipe de mastozoologia com a professora Ana Paula Carmignotto, da UFSCar. O mesmo esfor\u00e7o de coleta na \u201cbaixa Amaz\u00f4nia\u201d, segundo eles, teria produzido um resultado oposto, com um n\u00famero bem maior de esp\u00e9cies, por\u00e9m menos indiv\u00edduos coletados de cada uma delas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os \u00fanicos animais de maior porte registrados na expedi\u00e7\u00e3o foram antas e duas esp\u00e9cies de macaco (prego e guariba), avistados nas partes mais baixas da serra. Por conta das dificuldades impostas pelo terreno, o trabalho dos pesquisadores ficou restrito a uma faixa de 1.700 a 2.000 metros (m) de altitude.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar de estarem fisicamente conectadas com as florestas abaixo delas, essas forma\u00e7\u00f5es montanhosas abrigam ambientes altamente diferenciados do restante da Amaz\u00f4nia. S\u00e3o como ilhas que se elevam sobre um oceano de floresta, com condi\u00e7\u00f5es ambientais pr\u00f3prias e pouca conectividade entre elas \u2014 condi\u00e7\u00f5es que favorecem o isolamento biogeogr\u00e1fico e, consequentemente, a evolu\u00e7\u00e3o de uma biodiversidade pr\u00f3pria, exclusiva desses locais. A altitude \u00e9 um fator determinante: quanto maior a eleva\u00e7\u00e3o, menor a temperatura e, consequentemente, menor a quantidade e a diversidade de seres vivos capazes de sobreviver ali.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Assim como ocorre nas ilhas oce\u00e2nicas, portanto, \u00e9 de se esperar que essas montanhas florestais tenham uma biodiversidade mais restrita e altamente end\u00eamica, comparativamente ao resto da Amaz\u00f4nia. V\u00e1rias das esp\u00e9cies coletadas na Serra do Imeri s\u00e3o parecidas \u2014 mas n\u00e3o necessariamente id\u00eanticas \u2014 com as que os pesquisadores coletaram alguns anos atr\u00e1s no Pico da Neblina, numa expedi\u00e7\u00e3o muito semelhante \u00e0 atual, ou que j\u00e1 eram conhecidas de outros tepuis, mas que nunca haviam sido coletadas no Brasil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo os pesquisadores, essas semelhan\u00e7as sugerem que a Serra do Imeri j\u00e1 foi um tepui tamb\u00e9m, apesar de n\u00e3o ter mais esse formato caracter\u00edstico. O tampo da mesa, digamos assim, foi corro\u00eddo pela eros\u00e3o, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de alguns mon\u00f3litos de granito mais duro que hoje se projetam de suas escarpas como rel\u00edquias geol\u00f3gicas de um passado distante \u2014 preservado tanto nos minerais das rochas quanto no DNA das esp\u00e9cies end\u00eamicas que sobrevivem ali, e que agora ser\u00e3o estudadas pelos cientistas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Identificar essas esp\u00e9cies \u00e9 apenas o primeiro passo. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, o que os pesquisadores buscam \u00e9 justamente entender como cada uma delas se insere coletivamente num contexto hist\u00f3rico de evolu\u00e7\u00e3o da biodiversidade da Amaz\u00f4nia, incluindo suas rela\u00e7\u00f5es no tempo e no espa\u00e7o com a biodiversidade dos Andes, da Mata Atl\u00e2ntica e outros biomas da Am\u00e9rica do Sul.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No caso das plantas, a biodiversidade end\u00eamica dessas montanhas pode ser uma pe\u00e7a-chave para a compreens\u00e3o das origens da flora amaz\u00f4nica e sul-americana como um todo, segundo a professora L\u00facia Lohmann, do Departamento de Bot\u00e2nica do IB-USP. \u201cAcreditamos que v\u00e1rias linhagens de plantas tiveram sua origem aqui, nessa regi\u00e3o mais alta da Amaz\u00f4nia; depois desceram e ocuparam as regi\u00f5es mais baixas, se diversificando ao longo do processo\u201d, relata ela. \u201cNossa proposta \u00e9 tentar entender essas origens, como surgiu essa biota t\u00e3o diversa que hoje est\u00e1 distribu\u00edda por toda a Am\u00e9rica do Sul. As esp\u00e9cies que est\u00e3o aqui em cima s\u00e3o cr\u00edticas para isso.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Lohmann e a colega Rafaela Forzza, do JBRJ, coletaram amostras de 220 esp\u00e9cies de plantas, dos mais diversos tipos e tamanhos, desde pequeninas orqu\u00eddeas at\u00e9 palmeiras de v\u00e1rios metros de comprimento. Mais especificamente: seis exemplares de cada esp\u00e9cie, totalizando 1.320 amostras, para serem distribu\u00eddas entre diferentes herb\u00e1rios e compartilhadas com especialistas para identifica\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Lohmann estima que 10% dessas esp\u00e9cies possam ser novas, al\u00e9m de outros registros importantes. As brom\u00e9lias \u201cgigantes\u201d que rodeiam nosso acampamento, por exemplo, s\u00f3 eram conhecidas de uma outra serra, na divisa de Roraima com a Venezuela (a Serra Parima), com base numa coleta feita mais de meio s\u00e9culo atr\u00e1s (em 1969): Brocchinia hechtioides. Mais uma esp\u00e9cie end\u00eamica do Pantepui. As maiores chegam a ter quase dois metros de altura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outra linha de pesquisa, liderada por Camacho, busca mapear a vulnerabilidade desses animais end\u00eamicos ao aquecimento global. Usando um aparato simples, que ele mesmo construiu (e sem impor qualquer sofrimento aos animais), o pesquisador mede o limite de temperatura ao qual cada esp\u00e9cie de r\u00e9ptil e anf\u00edbio est\u00e1 fisiologicamente adaptada para sobreviver \u2014 chamada de temperatura volunt\u00e1ria m\u00e1xima, ou TVM. A ideia \u00e9 saber a partir de que ponto no term\u00f4metro o aquecimento global se torna uma amea\u00e7a para elas, a ponto de colocar suas popula\u00e7\u00f5es em risco.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEssas esp\u00e9cies que vivem no cume de montanhas s\u00e3o especialmente vulner\u00e1veis ao aquecimento clim\u00e1tico\u201d, destaca o bi\u00f3logo espanhol, doutor e p\u00f3s-doutor em zoologia pelo IB-USP. As que vivem mais embaixo podem subir a montanha em busca de climas mais amenos, \u00e0 medida que a temperatura do planeta aumenta; mas as que j\u00e1 vivem no topo, n\u00e3o. \u201cEssa op\u00e7\u00e3o de subir para fugir n\u00e3o existe para elas.\u201d Mesmo vivendo dentro de uma \u00e1rea protegida, portanto, essas esp\u00e9cies podem ter sua exist\u00eancia encurralada pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">VIDA NAS ALTURAS<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O in\u00edcio da expedi\u00e7\u00e3o estava previsto para 5 de novembro, mas precisou ser adiado em dois dias por quest\u00f5es meteorol\u00f3gicas. \u00c0s 7 horas do dia 7 de novembro, embarcamos \u2014 metade da equipe \u2014 em um grande helic\u00f3ptero Jaguar do Ex\u00e9rcito brasileiro, para um voo de 25 minutos de Santa Isabel do Rio Negro at\u00e9 a Serra do Imeri. O voo transcorreu sem problemas, mas o restante da equipe precisou esperar outras 24 horas para fazer o mesmo trajeto, pois logo que pousamos as nuvens se fecharam sobre a montanha e n\u00e3o abriram de novo at\u00e9 o fim do dia. O helic\u00f3ptero at\u00e9 chegou a decolar, mas teve que dar meia-volta alguns minutos depois, para frustra\u00e7\u00e3o de todos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o h\u00e1 outro caminho para chegar l\u00e1 a n\u00e3o ser pelo ar. Nos meses que antecederam a expedi\u00e7\u00e3o, o Ex\u00e9rcito fez v\u00e1rias tentativas de estabelecer uma via de acesso terrestre ou fluvial at\u00e9 o local, mas sem sucesso. Por sorte encontraram uma pequena \u00e1rea, mais ou menos plana, onde era poss\u00edvel pousar o helic\u00f3ptero; caso contr\u00e1rio, nem mesmo isso teria sido poss\u00edvel. \u201cSe o professor e sua equipe queriam um local realmente isolado (para pesquisar), conseguiram\u201d, disse o chefe do Comando Militar da Amaz\u00f4nia (CMA), general Achilles Furlan Neto, ao nos receber no quartel-general do Ex\u00e9rcito em Manaus, no in\u00edcio de novembro.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Diferentemente do Pico da Neblina, onde h\u00e1 uma presen\u00e7a bem estabelecida de yanomamis e militares, essa por\u00e7\u00e3o mais ao sul da Serra do Imeri \u00e9 uma verdadeira terra inc\u00f3gnita. Na busca por um caminho at\u00e9 o topo, batedores do Ex\u00e9rcito \u2014 sob o comando do tenente-coronel M\u00e1rcio Weber de Menezes, do 3\u00b0 Batalh\u00e3o de Infantaria de Selva (3\u00b0 BIS) \u2014 fizeram consultas \u00e0s comunidades Yanomami da regi\u00e3o, que relataram n\u00e3o subir a serra. \u201cSe nem o Ex\u00e9rcito nem os ind\u00edgenas foram l\u00e1, acho que ningu\u00e9m foi\u201d, concluiu o general Furlan.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A expedi\u00e7\u00e3o foi autorizada pelo Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio), respons\u00e1vel pela gest\u00e3o do parque nacional e pelas licen\u00e7as de coleta, e pela Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai), com consulta \u00e0s associa\u00e7\u00f5es que representam a etnia Yanomami na regi\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A base da expedi\u00e7\u00e3o foi montada em meio a um bromelial, com cinco grandes barracas do tipo canadense, organizadas por finalidade: cozinha, laborat\u00f3rio, enfermaria e dormit\u00f3rios. Somando tudo: sete toneladas de infraestrutura, equipamentos e suprimentos, que exigiram sete voos de helic\u00f3ptero para serem transportadas at\u00e9 l\u00e1. Uma equipe de 21 militares permaneceu no local para operar o acampamento e apoiar o trabalho dos pesquisadores na montanha, liderada pelo capit\u00e3o Jefferson Fagundes, do 3\u00b0 BIS. \u201cSeria imposs\u00edvel realizar essa expedi\u00e7\u00e3o sem o apoio do Ex\u00e9rcito\u201d, ressaltou Rodrigues, em diversas ocasi\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A vista do acampamento era impressionante. Bem \u00e0 nossa frente estava o Pico do Imeri, com quase 2.400 metros de altura, coroado por um gigantesco mon\u00f3lito piramidal, enfeitado por tapetes de vegeta\u00e7\u00e3o que parecem escorrer por suas encostas como uma cobertura de bolo. Olhando para a esquerda, na dire\u00e7\u00e3o noroeste, v\u00e1rias escarpas montanhosas se alinhavam uma ap\u00f3s a outra, com o contorno do Pico da Neblina percept\u00edvel no horizonte distante. \u00c0 direita, olhando para o sudeste, mais montanhas se esparramavam sobre uma plan\u00edcie verde que se estendia a perder de vista, na dire\u00e7\u00e3o do Rio Negro. Mesmo para aqueles acostumados a andar pela Amaz\u00f4nia, era uma paisagem fora do comum.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O acesso \u00e0s florestas no entorno era feito por meio de tr\u00eas trilhas principais, que os pesquisadores percorriam diariamente para fazer suas coletas. As dist\u00e2ncias n\u00e3o eram longas, mas o terreno era dif\u00edcil: \u00edngreme, acidentado e lamacento. Em v\u00e1rios pontos era necess\u00e1rio usar cordas para se locomover com seguran\u00e7a. N\u00e3o faltaram hematomas e arranh\u00f5es distribu\u00eddos ao longo da expedi\u00e7\u00e3o; mas, felizmente, ningu\u00e9m se feriu com gravidade. Lohmann chegou a quebrar seis costelas numa queda, mas foi atendida pela m\u00e9dica do Ex\u00e9rcito no acampamento e n\u00e3o teve maiores complica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As t\u00e9cnicas de coleta s\u00e3o diferentes para cada grupo, mas todas envolvem uma combina\u00e7\u00e3o do uso de armadilhas com busca ativa na natureza \u2014 quando os pesquisadores saem procurando pelos bichos no meio da mata. Para r\u00e9pteis e anf\u00edbios, por exemplo, as armadilhas mais cl\u00e1ssicas s\u00e3o as do tipo pitfall, que nada mais s\u00e3o do que baldes enterrados no solo, em que os bichos caem e n\u00e3o conseguem mais sair. Tr\u00eas das quatro esp\u00e9cies novas de lagarto da Serra do Imeri tiveram indiv\u00edduos coletados dessa forma, enquanto que os novos sapinhos e pererecas foram todos encontrados por meio de busca ativa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Cada esp\u00e9cime coletado recebe um \u201cn\u00famero de campo\u201d, que passa a funcionar como um RG daquele bicho, acompanhado de anota\u00e7\u00f5es sobre onde, como e quando ele foi capturado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outro procedimento-padr\u00e3o introduzido nessa expedi\u00e7\u00e3o foi a coleta de amostras de sangue dos animais capturados, para a detec\u00e7\u00e3o de tripanossomat\u00eddeos \u2014 fam\u00edlia de protozo\u00e1rios que inclui o Trypanosoma cruzi, causador da doen\u00e7a de Chagas, e o Trypanosoma brucei, da doen\u00e7a do sono. De um total de 240 amostras, 14 haviam testado positivo para tripanossoma at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem, extra\u00eddas de mam\u00edferos, aves e anf\u00edbios.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Assim como no caso de seus hospedeiros, \u00e9 praticamente certo que muitos desses parasitas representam esp\u00e9cies novas, segundo o pesquisador Bruno Fermino, p\u00f3s-doutorando no Departamento de Parasitologia do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas (ICB) da USP, respons\u00e1vel pela coleta e an\u00e1lise das amostras. O conhecimento dessa biodiversidade de parasitas selvagens tem import\u00e2ncia sanit\u00e1ria nacional, visto que esses tripanossomas podem vir a infectar animais de produ\u00e7\u00e3o (como frangos) e at\u00e9 seres humanos no futuro, \u00e0 medida que o homem avan\u00e7a sobre a floresta. \u201cA\u00ed a gente n\u00e3o tem ideia de qual doen\u00e7a eles poderiam causar\u201d, alerta Fermino.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A expedi\u00e7\u00e3o chegou ao fim em 18 de novembro, dois dias antes do previsto \u2014 os suprimentos estavam acabando, o clima era imprevis\u00edvel e o Ex\u00e9rcito achou por bem desmontar o acampamento e tirar todo mundo da montanha em seguran\u00e7a, aproveitando uma janela de tempo bom. Ainda ser\u00e3o necess\u00e1rios muitos anos de pesquisa para analisar e descrever todo o material que foi trazido de l\u00e1, mas ningu\u00e9m tem d\u00favidas de que a expedi\u00e7\u00e3o foi um sucesso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cSucesso absoluto\u201d, comemora Rodrigues. \u201cA gente ganhou muito com essa expedi\u00e7\u00e3o.\u201d N\u00e3o s\u00f3 do ponto de vista do conhecimento cient\u00edfico, diz ele, mas tamb\u00e9m de fortalecimento da soberania nacional. Pela primeira vez, juntando o que foi coletado no Imeri e no Pico da Neblina, o Brasil tem material biol\u00f3gico pr\u00f3prio e \u201cindepend\u00eancia intelectual\u201d para pesquisar a biodiversidade dessas terras altas da Amaz\u00f4nia, que at\u00e9 agora era de dom\u00ednio quase que exclusivo de outros pa\u00edses. \u201cEssa independ\u00eancia intelectual nos d\u00e1 soberania, e isso \u00e9 muito importante\u201d, conclui Rodrigues.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Todo o material coletado na expedi\u00e7\u00e3o foi depositado nas cole\u00e7\u00f5es do IB e do MZ da USP. No caso da bot\u00e2nica, duplicatas de todas as plantas ainda ser\u00e3o enviadas, tamb\u00e9m, para os herb\u00e1rios do Jardim Bot\u00e2nico do Rio de Janeiro e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia (Inpa), em Manaus.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte: Jornal da USP &#8211; Texto: Herton Escobar, enviado especial a Santa Isabel do Rio Negro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Foto: Pico do Imeri &#8211; Herton Escobar\/USP Imagens<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nota da Reda\u00e7\u00e3o: Esta \u00e9 a primeira de uma s\u00e9rie de reportagens em texto e v\u00eddeo que ser\u00e3o publicadas sobre a expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 Serra do Imeri pelo Jornal da USP, entre janeiro e fevereiro de 2023.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEstamos preenchendo uma p\u00e1gina em branco na hist\u00f3ria da biodiversidade brasileira\u201d, diz o professor Miguel Trefaut Rodrigues, da USP, l\u00edder da expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 Serra do Imeri. \u201cFiquem com os ouvidos ligados. 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