{"id":2836,"date":"2022-12-18T14:31:16","date_gmt":"2022-12-18T17:31:16","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/?p=2836"},"modified":"2022-12-23T15:06:53","modified_gmt":"2022-12-23T18:06:53","slug":"recheados-de-carbono-azul-manguezais-ganham-destaque-no-combate-as-mudancas-climaticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/2022\/12\/18\/recheados-de-carbono-azul-manguezais-ganham-destaque-no-combate-as-mudancas-climaticas\/","title":{"rendered":"Recheados de &#8220;carbono azul&#8221;, manguezais ganham destaque no combate \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-2837\" src=\"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Manguezal-caranguejo-uca-Caravelas-BA-300x193.webp\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"193\" srcset=\"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Manguezal-caranguejo-uca-Caravelas-BA-300x193.webp 300w, https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Manguezal-caranguejo-uca-Caravelas-BA-1024x660.webp 1024w, https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Manguezal-caranguejo-uca-Caravelas-BA-768x495.webp 768w, https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Manguezal-caranguejo-uca-Caravelas-BA.webp 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar e aquecimento da atmosfera amea\u00e7am a conserva\u00e7\u00e3o desses ecossistemas costeiros, que s\u00e3o ber\u00e7\u00e1rios da vida marinha e podem conter duas vezes mais carbono por hectare do que florestas tropicais. Confira mat\u00e9ria especial publicada pelo Jornal da USP:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nascido e criado na lama, com um p\u00e9 na terra e outro no mar, hora seco, hora submerso pelo incans\u00e1vel vai-e-vem das mar\u00e9s, o manguezal \u00e9 um ecossistema acostumado a mudan\u00e7as e adversidades. Nem mesmo ele, por\u00e9m, est\u00e1 imune ao impacto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que a\u00e7oitam o planeta com intensidade cada vez maior. \u201cO manguezal aguenta quase tudo, mas at\u00e9 ele tem um limite\u201d, diz a professora Yara Schaeffer Novelli, do Instituto Oceanogr\u00e1fico (IO) da USP, matriarca acad\u00eamica da ecologia de manguezais no Brasil. Modifica\u00e7\u00f5es ambientais que costumavam ocorrer ao longo de milhares de anos est\u00e3o ocorrendo, agora, num \u00fanico ciclo de vida, impulsionadas pela a\u00e7\u00e3o humana. \u201cS\u00e3o altera\u00e7\u00f5es muito grandes num tempo muito curto. N\u00e3o h\u00e1 ecossistema que suporte isso\u201d, alerta a professora ao Jornal da USP.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Isso \u00e9 m\u00e1 not\u00edcia n\u00e3o s\u00f3 para os bichos e plantas desses ecossistemas costeiros, mas tamb\u00e9m para os seres humanos em geral, incluindo aqueles que nunca pisaram nem planejam afundar um dia os p\u00e9s na lama de um manguezal. Distribu\u00eddos ao longo das franjas de quase toda a linha de costa brasileira \u2014 do extremo Norte do Amap\u00e1 at\u00e9 meados do litoral de Santa Catarina \u2014 os manguezais cobrem apenas 0,16% do territ\u00f3rio brasileiro, mas possuem uma relev\u00e2ncia socioambiental que se projeta muito al\u00e9m de sua extens\u00e3o territorial.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Entre os v\u00e1rios servi\u00e7os ambientais gratuitos que eles prestam \u00e0 esp\u00e9cie humana, um que vem ganhando destaque nos \u00faltimos anos \u00e9 a sua impressionante capacidade de estocar \u201ccarbono azul\u201d \u2014 um termo colorido usado para se referir ao carbono de ecossistemas marinhos e costeiros, em contraste com o \u201ccarbono verde\u201d associado \u00e0s florestas e outros ecossistemas terrestres. Estimativas indicam que um hectare de manguezal no Brasil pode armazenar entre duas e quatro vezes mais carbono do que um mesmo hectare de outro bioma qualquer \u2014 incluindo a floresta amaz\u00f4nica \u2014, segundo um <\/span><a href=\"https:\/\/www.frontiersin.org\/articles\/10.3389\/ffgc.2021.787533\/full\"><span style=\"font-weight: 400;\">estudo <\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">publicado no in\u00edcio de 2022 na revista Frontiers in Forests and Global Change.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A maior parte desse carbono fica estocada no solo lamoso do manguezal, onde a aus\u00eancia de oxig\u00eanio retarda, ou at\u00e9 impede completamente, a decomposi\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria org\u00e2nica que est\u00e1 soterrada ali. O resultado \u00e9 um reservat\u00f3rio natural de longo prazo que pode ser encarado tanto como um tesouro enterrado quanto uma bomba-rel\u00f3gio prestes a ser detonada, dependendo do que acontecer com esses ecossistemas daqui para frente. Se os manguezais forem protegidos e esse carbono permanecer no solo, \u00f3timo! Se eles forem destru\u00eddos e esse carbono for parar na atmosfera, ser\u00e1 como borrifar gasolina no fogo do aquecimento global.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201c\u00c9 um reservat\u00f3rio que precisa ser deixado quieto\u201d, resume o ec\u00f3logo brasileiro Andr\u00e9 Rovai, autor do estudo na Frontiers in Forests and Global Change e pesquisador assistente na Universidade do Estado da Louisiana, nos Estados Unidos. N\u00e3o s\u00f3 por conta do que j\u00e1 est\u00e1 estocado nele, mas por todo o carbono que ainda pode ser depositado ali. Al\u00e9m de \u00f3timos guardadores, os manguezais tamb\u00e9m s\u00e3o excelentes sorvedouros de carbono, tanto por meio do crescimento de suas florestas, que retiram g\u00e1s carb\u00f4nico da atmosfera, quanto pelo ac\u00famulo da mat\u00e9ria org\u00e2nica que desce pelos rios e fica depositada na sua lama, como se ela fosse um filtro.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cO manguezal \u00e9 um meio do caminho entre a terra e o mar\u201d, descreve Rovai. \u201cEle produz sua pr\u00f3pria biomassa e ainda armazena parte do carbono que flui de dentro do continente.\u201d Estimativas globais, segundo ele, sugerem que os manguezais podem sequestrar quase 1 bilh\u00e3o de toneladas de carbono por ano, o equivalente a 10% de todo o carbono emitido anualmente no mundo pela esp\u00e9cie humana (10 bilh\u00f5es de toneladas).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cOs manguezais s\u00e3o um grande hotspot de carbono\u201d, refor\u00e7a o professor Roberto Barcellos, do Departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que nos \u00faltimos anos passou a se dedicar intensamente \u00e0 pesquisa do carbono azul. \u201cN\u00e3o existe ecossistema que acumule tanto carbono quanto eles.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A quantidade de carbono por hectare pode variar bastante de um lugar para outro, dependendo das particularidades ambientais de cada localidade. Afinal de contas, \u201ccada mangue \u00e9 um mangue; n\u00e3o existem dois manguezais iguais\u201d, costuma dizer a professora Yara. H\u00e1 muitas vari\u00e1veis que ainda precisam ser melhor estudadas para encaixar os manguezais com maior precis\u00e3o cient\u00edfica nos invent\u00e1rios nacionais e na arquitetura global dos fluxos de carbono, incluindo suas emiss\u00f5es naturais de di\u00f3xido de carbono, metano e outros gases naturais do efeito estufa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas uma coisa que j\u00e1 fica clar\u00edssima nos dados, segundo os especialistas, \u00e9 que os manguezais s\u00e3o uma pe\u00e7a importante no quebra-cabe\u00e7a das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas globais. Uma pe\u00e7a que precisa ser n\u00e3o apenas protegida, como multiplicada. \u201cPreservar os manguezais \u00e9 essencial, mas n\u00e3o s\u00f3 isso\u201d, destaca Barcellos. \u201c\u00c9 preciso restaurar o que j\u00e1 foi perdido e criar novas \u00e1reas de manguezal onde for poss\u00edvel.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">AMEA\u00c7A CLIM\u00c1TICA<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Brasil abriga uma das maiores \u00e1reas de manguezal do planeta: 1,4 milh\u00e3o de hectares, segundo o <\/span><a href=\"https:\/\/acervo.socioambiental.org\/acervo\/livros\/atlas-dos-manguezais-do-brasil\"><span style=\"font-weight: 400;\">Atlas dos Manguezais do Brasil<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, publicado em 2018 pelo Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio), do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente (MMA). Cerca de 80% desses ecossistemas est\u00e3o concentrados em tr\u00eas Estados (Maranh\u00e3o, Par\u00e1 e Amap\u00e1) e 87% est\u00e3o inseridos em alguma unidade de conserva\u00e7\u00e3o, como parques, reservas ou \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o ambiental (APAs). Historicamente, estima-se que 25% das \u00e1reas originais de manguezal no Brasil j\u00e1 tenham sido suprimidas desde o in\u00edcio do s\u00e9culo 20, segundo o Atlas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esses dados referem-se ao ecossistema manguezal como um todo, incluindo suas florestas (bosques de mangue) e outras fei\u00e7\u00f5es diretamente associadas a elas, como as plan\u00edcies alagadas e os apicuns, que s\u00e3o \u00e1reas mais secas e com menor cobertura vegetal, por\u00e9m igualmente relevantes do ponto de vista ecol\u00f3gico do ecossistema.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Olhando especificamente para as forma\u00e7\u00f5es florestais, o Brasil tem pouco mais de 1 milh\u00e3o de hectares de bosques de mangue distribu\u00eddos ao longo de sua zona costeira, segundo o <\/span><a href=\"https:\/\/mapbiomas-br-site.s3.amazonaws.com\/MapBiomas_Zona_Costeira_2022_18_11_OK.pdf\"><span style=\"font-weight: 400;\">mapeamento mais recente<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> da organiza\u00e7\u00e3o MapBiomas, que traz dados atualizados at\u00e9 2021. Comparado a 2001, isso representa uma redu\u00e7\u00e3o de 2%. Comparado a 1985, por\u00e9m, houve um aumento de 4% \u2014 n\u00fameros que refletem tanto uma din\u00e2mica de transforma\u00e7\u00f5es naturais dos manguezais quanto press\u00f5es antr\u00f3picas (de origem humana) \u00e0s quais eles est\u00e3o submetidos. Excluindo perdas e ganhos mais perif\u00e9ricos, o MapBiomas estima que 84% da cobertura de florestas de mangue no Brasil permaneceu est\u00e1vel nesses \u00faltimos 37 anos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEntre mortos e feridos no cen\u00e1rio ambiental do Brasil, os manguezais s\u00e3o um exemplo muito positivo de resili\u00eancia\u201d, diz o coordenador t\u00e9cnico de mapeamento de zonas costeiras do MapBiomas, Cesar Diniz. Tr\u00eas quartos dessas florestas de mangue (75%) est\u00e3o dentro de \u00e1reas legalmente protegidas, segundo a publica\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A m\u00e1 not\u00edcia \u00e9 que nada disso \u00e9 garantia de imunidade \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que j\u00e1 est\u00e3o em curso e tendem a se agravar muito mais ainda nos pr\u00f3ximos anos. As principais amea\u00e7as s\u00e3o a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar e o aumento \u2014 tanto na frequ\u00eancia quanto na intensidade \u2014 da ocorr\u00eancia de eventos clim\u00e1ticos extremos, como ressacas, tempestades e vendavais, com capacidade para submergir, erodir e agredir esses ambientes costeiros que s\u00e3o ocupados pelos manguezais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em \u00faltima inst\u00e2ncia, segundo os especialistas, a capacidade dos manguezais de sobreviver a esse intenso bombardeio clim\u00e1tico depender\u00e1 da disponibilidade de \u00e1reas para as quais eles possam migrar em busca de condi\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis, \u00e0 medida que seus territ\u00f3rios atuais s\u00e3o redesenhados no mapa pelo avan\u00e7o das mar\u00e9s.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Simplificando as coisas: as \u00e1rvores de mangue s\u00e3o as \u00fanicas capazes de sobreviver em \u00e1reas de influ\u00eancia da mar\u00e9, por causa da alta salinidade do ambiente que \u00e9 inundado pela \u00e1gua do mar. Qualquer outra vegeta\u00e7\u00e3o terrestre morre. Sendo assim, \u00e0 medida que o n\u00edvel do mar aumenta e as ondas avan\u00e7am sobre a linha da costa e os estu\u00e1rios, a fronteira de ocupa\u00e7\u00e3o dos manguezais, teoricamente, tamb\u00e9m se desloca em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 terra firme, puxada pelo alcance das mar\u00e9s. Se por um lado eles podem ser devorados pela eros\u00e3o, por outro podem se expandir continente adentro. Isto \u00e9, se n\u00e3o houver uma estrada, ind\u00fastria, condom\u00ednio, montanha ou tanque de camar\u00e3o no meio do caminho para impedir sua passagem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cSe o manguezal n\u00e3o tiver espa\u00e7o para se acomodar, ele acaba\u201d, resumiu a ge\u00f3loga e ocean\u00f3grafa C\u00e9lia Souza, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Ambientais da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente (IPA-Sima) do Estado de S\u00e3o Paulo, em um semin\u00e1rio sobre o tema realizado em julho deste ano: <\/span><a href=\"https:\/\/agenciacosteira.org.br\/seminario-manguezais\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">Manguezais na d\u00e9cada dos oceanos \u2013 Manejo, recupera\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o de pescadores artesanais e catadores<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. \u201cInfelizmente, as plan\u00edcies costeiras s\u00e3o as melhores para constru\u00e7\u00e3o civil\u201d, acrescentou a ge\u00f3grafa Viviane Buchianeri, especialista em manejo de \u00e1reas protegidas e fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental da Funda\u00e7\u00e3o Florestal (FF), vinculada ao governo paulista.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ou seja, o risco de conflito entre manguezais migrantes e infraestrutura humana instalada \u00e9 grande, principalmente nas regi\u00f5es Sudeste e Nordeste do Brasil, onde as taxas de ocupa\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o costeira s\u00e3o maiores e as \u00e1reas remanescentes de manguezal est\u00e3o bastante fragmentadas. J\u00e1 na costa Norte do Pa\u00eds (Maranh\u00e3o, Par\u00e1 e Amap\u00e1), onde est\u00e1 concentrada a maior parte dos manguezais brasileiros, a movimenta\u00e7\u00e3o tende a ser mais pac\u00edfica, em fun\u00e7\u00e3o da menor densidade demogr\u00e1fica nas \u00e1reas de mangue daquela regi\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cOs efeitos podem ser variados. \u00c9 prov\u00e1vel que haja expans\u00e3o de manguezais em alguns lugares e retra\u00e7\u00e3o, em outros\u201d, observa Clemente Coelho Junior, professor do Instituto de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas da Universidade de Pernambuco. O desfecho, segundo ele, vai depender de diversas vari\u00e1veis clim\u00e1ticas, oceanogr\u00e1ficas e geogr\u00e1ficas. Entre elas: o grau e a velocidade de eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar, a quantidade de sedimentos que chegam pelos rios, as taxas de sedimenta\u00e7\u00e3o e a topografia de cada localidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em grande parte do litoral paulista, por exemplo, al\u00e9m de toda a ocupa\u00e7\u00e3o humana j\u00e1 consolidada, existe uma muralha natural gigantesca bloqueando a passagem, que \u00e9 a Serra do Mar. Os manguezais s\u00e3o capazes de muitas fa\u00e7anhas, mas n\u00e3o sobem montanhas. \u201cAli o manguezal est\u00e1 encurralado, n\u00e3o tem muito para onde fugir\u201d, sentencia Coelho Junior.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cO mangue \u00e9 resiliente, sim, mas a gente precisa ajudar nesse processo\u201d, diz a professora Mar\u00edlia Lignon, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Registro, na regi\u00e3o do Vale do Ribeira. Em muitos casos, acontece justamente o oposto: \u201cEstamos piorando muito a capacidade dos manguezais de se ajustar a essas altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas\u201d, ressalta a professora \u2014 lembrando que as mudan\u00e7as est\u00e3o acontecendo de forma muito mais r\u00e1pida e intensa hoje do que no passado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Lignon lidera um grande grupo de pesquisa multidisciplinar e multi-institucional chamado Monitoramento Integrado de Manguezais, que rastreia o estado de sa\u00fade e a din\u00e2mica ecol\u00f3gica de diversas parcelas de mangue nas regi\u00f5es de Iguape e Cananeia, no litoral Sul de S\u00e3o Paulo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A reportagem do Jornal da USP acompanhou a equipe da professora num trabalho de campo em agosto, no estu\u00e1rio de Cananeia; uma regi\u00e3o de paisagens bel\u00edssimas e com uma abund\u00e2ncia de vida selvagem impressionante, protegida por dois parques estaduais (da Ilha do Cardoso e do Lagamar de Cananeia) e uma reserva extrativista (a Resex do Mandira), onde convivem v\u00e1rias comunidades tradicionais de pescadores, marisqueiros e criadores de ostras. Quase sempre trabalhando dentro da \u00e1gua ou afundadas na lama, a professora e suas alunas medem a altura e o di\u00e2metro de centenas de \u00e1rvores de mangue, distribu\u00eddas por uma rede de parcelas de monitoramento previamente estabelecida. \u201cVenho aqui desde que esse mangue tinha um metro de altura; \u00e9 como se fosse um filho que eu vi crescer\u201d, descreve Lignon, em meio a um bosque formado por \u00e1rvores de mangue-vermelho (Rhizophora mangle) que chegam a 10 metros de altura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As pesquisadoras anotam a esp\u00e9cie de cada \u00e1rvore, se ela est\u00e1 viva ou morta, inteira ou quebrada, e medem a salinidade do solo, entre outros par\u00e2metros que permitem dizer, por exemplo, se aquela floresta est\u00e1 crescendo ou definhando, ganhando ou perdendo biomassa (mat\u00e9ria org\u00e2nica vegetal). E como biomassa \u00e9 feita essencialmente de carbono, isso permite inferir, tamb\u00e9m, se os manguezais est\u00e3o perdendo ou acumulando carbono ao longo do tempo. O diagn\u00f3stico varia entre parcelas e regi\u00f5es, mas uma mensagem importante que emerge dos dados \u00e9 a de que os manguezais que est\u00e3o dentro de \u00e1reas protegidas e menos expostos a agress\u00f5es humanas s\u00e3o mais saud\u00e1veis, mais resistentes, acumulam mais carbono e se recuperam mais r\u00e1pido de danos causados por eventos clim\u00e1ticos extremos, como tempestades ou vendavais, que por vezes destroem bosques de manguezal inteiros.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O trabalho come\u00e7ou no in\u00edcio dos anos 2000, quando Lignon ainda era aluna de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no IO \u2014 orientada\u00a0 pela professora Yara Novelli, assim como a maioria dos especialistas ouvidos para esta reportagem \u2014, e se transformou num dos projetos mais importantes e mais longevos de monitoramento de manguezais no Brasil.\u00a0 \u201cTemos que entender que as florestas de mangue s\u00e3o nossas aliadas no combate \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e precisam ser protegidas. Isso \u00e9 fundamental\u201d, alerta ela.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os manguezais ocupam apenas 0,1% do territ\u00f3rio do Estado de S\u00e3o Paulo, segundo o mais recente <\/span><a href=\"https:\/\/www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br\/ipa\/2022\/06\/inventario-da-cobertura-vegetal-nativa-do-estado-de-sao-paulo\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">Invent\u00e1rio da Cobertura Vegetal Nativa <\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">do Estado. S\u00e3o 24.574 hectares, divididos quase que exatamente entre o litoral Sul e a Baixada Santista, e apenas 195 hectares no litoral Norte. S\u00e3o ecossistemas que vivem \u201cnuma encruzilhada\u201d, segundo Marco Nalon, diretor do Departamento T\u00e9cnico-Cient\u00edfico do IPA-Sima: ao mesmo tempo que protegem contra as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, s\u00e3o afetados por elas. \u201cN\u00e3o bastasse isso, ocorre a press\u00e3o humana\u201d, destacou Nalon, no semin\u00e1rio de julho, promovido pela secretaria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A boa not\u00edcia \u00e9 que 68% desses manguezais paulistas est\u00e3o dentro de \u00e1reas protegidas, incluindo \u00e1reas de uso sustent\u00e1vel e de prote\u00e7\u00e3o integral. Ainda assim, \u00e9 um cen\u00e1rio que exige cuidados e aten\u00e7\u00e3o constante do poder p\u00fablico. Pelos crit\u00e9rios da Uni\u00e3o Internacional para Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza (IUCN), segundo Nalon, os manguezais de S\u00e3o Paulo podem ser considerados ecossistemas \u201cem perigo de colapso\u201d. A estimativa \u00e9 de que mais de 50% da cobertura original de manguezais do Estado j\u00e1 foi perdida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A regi\u00e3o mais conflituosa \u00e9 a da Baixada Santista, que abrange Santos e outros oito munic\u00edpios da parte mais central do litoral de S\u00e3o Paulo, entre Peru\u00edbe e Bertioga. A regi\u00e3o preserva grande parte de sua vegeta\u00e7\u00e3o nativa ainda intacta, por\u00e9m fortemente pressionada por atividades humanas, principalmente no entorno de Santos. O munic\u00edpio tem mais de 430 mil habitantes concentrados sobre uma ilha com menos de 40 quil\u00f4metros quadrados, quase toda ela ao n\u00edvel do mar e cercada por portos, marinas, ind\u00fastrias e demandas sociais n\u00e3o atendidas que, muitas vezes, des\u00e1guam na ocupa\u00e7\u00e3o desordenada de \u00e1reas de manguezal. Num extremo est\u00e3o as palafitas \u2014 favelas constru\u00eddas sobre estacas de madeira na lama do mangue. No outro, toneladas e mais toneladas de concreto e a\u00e7o da maior infraestrutura portu\u00e1ria da Am\u00e9rica Latina.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A perda desses ecossistemas tem um impacto significativo na drenagem natural da ilha e na sua capacidade de resistir aos impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, segundo o engenheiro Eduardo Hosokawa, chefe da Se\u00e7\u00e3o de Mudan\u00e7a do Clima da Secretaria de Meio Ambiente e coordenador da Comiss\u00e3o Municipal de Adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 Mudan\u00e7a do Clima (CMMC) de Santos. Em condi\u00e7\u00f5es normais, os manguezais funcionam como barreiras naturais de prote\u00e7\u00e3o contra ressacas e mitiga\u00e7\u00e3o da eros\u00e3o costeira. Sem eles, a cidade fica mais vulner\u00e1vel \u00e0s intemp\u00e9ries clim\u00e1ticas e ainda precisa gastar fortunas com projetos de dragagem, drenagem e constru\u00e7\u00e3o de barreiras\u00a0 artificiais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para entender o problema \u00e9 f\u00e1cil: basta caminhar pela orla da Ponta da Praia de Santos e ver que grande parte da faixa de areia de um dos pontos mais tur\u00edsticos da cidade literalmente desapareceu do mapa nos \u00faltimos 50 anos. \u201cAs ressacas, que aconteciam de tempos em tempos, agora est\u00e3o muito mais frequentes\u201d, destaca Hosokawa. N\u00e3o por acaso, a prote\u00e7\u00e3o e restaura\u00e7\u00e3o de manguezais s\u00e3o uma das a\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas previstas no novo Plano de A\u00e7\u00e3o Clim\u00e1tica de Santos, lan\u00e7ado em janeiro de 2022.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cUm dos servi\u00e7os mais importantes que o mangue traz \u00e9 justamente o poder que suas ra\u00edzes t\u00eam de reter sedimentos e, com isso, impedir a eros\u00e3o da linha de costa estuarina (\u2026) e manter o balan\u00e7o sedimentar da zona costeira em equil\u00edbrio\u201d, disse a pesquisadora C\u00e9lia Souza, do IPA-Sima, no semin\u00e1rio promovido pela secretaria estadual em julho. \u201cE a\u00ed a gente inclui as praias tamb\u00e9m nisso.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fora do n\u00facleo portu\u00e1rio de Santos, a Baixada Santista ainda abriga grandes extens\u00f5es de ecossistemas manguezais que, al\u00e9m de estocarem carbono, prestam uma s\u00e9rie de outros servi\u00e7os ecossist\u00eamicos e ambientais extremamente importantes para a regi\u00e3o. \u201cA paisagem da Baixada \u00e9 um mosaico muito grande. Tem de tudo aqui, desde manguezais altamente impactados at\u00e9 altamente preservados\u201d, diz o pesquisador Ricardo Menghini, doutor em Oceanografia Biol\u00f3gica pelo Instituto Oceanogr\u00e1fico (IO) da USP e professor da Universidade Paulista (Unip).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma das principais estrat\u00e9gias em estudo para financiar o plantio e a restaura\u00e7\u00e3o de manguezais na regi\u00e3o \u00e9 a comercializa\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos vinculados ao carbono que pode ser absorvido por esses ecossistemas. Se o neg\u00f3cio der certo, \u201cser\u00e1 muito bem-vindo\u201d, diz o ocean\u00f3grafo Fabr\u00edcio Gandini, do Instituto Maramar, uma organiza\u00e7\u00e3o social sediada em Santos. Mas \u00e9 essencial que esses recursos sejam revertidos, tamb\u00e9m, em favor das comunidades que dependem dos manguezais para a sua sobreviv\u00eancia \u2014\u00a0 algo que n\u00e3o tem ocorrido de maneira eficaz, segundo ele, com os recursos de compensa\u00e7\u00e3o ambiental oriundos do setor portu\u00e1rio. Apesar de todas as dificuldades, segundo Gandini, h\u00e1 cerca de mil fam\u00edlias que ainda tiram seu sustento diretamente dos manguezais na Baixada Santista, por meio da pesca de peixes, mariscos e caranguejos. Assim como os pr\u00f3prios manguezais, as comunidades tradicionais que vivem em sinergia com eles s\u00e3o extremamente resilientes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cNa hora que n\u00e3o tiver mais gente pescando no manguezal, pode escrever: esse manguezal est\u00e1 condenado\u201d, disse o consultor ambiental Geraldo Eysink, que h\u00e1 mais de tr\u00eas d\u00e9cadas trabalha com plantio e restaura\u00e7\u00e3o de manguezais. Nenhum esfor\u00e7o de recupera\u00e7\u00e3o desses ecossistemas tem chance de dar certo, segundo ele, se n\u00e3o envolver os pescadores: \u201cos verdadeiros bioinformantes do manguezal\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">SERVI\u00c7OS ECOSSIST\u00caMICOS<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O armazenamento de carbono \u00e9 apenas um dos muitos servi\u00e7os ecossist\u00eamicos e socioambientais prestados \u00e0 humanidade pelos manguezais. Seu papel mais famoso, talvez, seja o de ber\u00e7\u00e1rio da vida marinha.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Cientistas estimam que cerca de tr\u00eas quartos (entre 70% e 80%) das esp\u00e9cies marinhas de valor comercial para a pesca utilizam o manguezal em alguma fase do seu desenvolvimento (para procriar, se alimentar ou crescer) e, portanto, dependem desse ecossistema para sobreviver \u2014 mesmo que, no fim da linha, sejam pescadas muito longe dali. \u201cN\u00e3o corte o mangue porque pode morrer a vida que tem dentro do mar\u201d, diz o refr\u00e3o de uma m\u00fasica do educador Carlinhos de Tote, do grupo Cantarolama, em Maragogipe (BA), que h\u00e1 mais de quatro d\u00e9cadas trabalha pela preserva\u00e7\u00e3o dos manguezais no Brasil. (<\/span><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=xcXq6DSVKMU&amp;t=1046s\"><span style=\"font-weight: 400;\">Clique<\/span><\/a> <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=xcXq6DSVKMU&amp;t=1046s\"><span style=\"font-weight: 400;\">aqui <\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">para ouvir a m\u00fasica, apresentada no semin\u00e1rio Manguezais na D\u00e9cada dos Oceanos.)\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Robalo, tainha e camar\u00e3o-sete-barbas s\u00e3o alguns exemplos de esp\u00e9cies marinhas que se criam dentro do manguezal; al\u00e9m de tantas outras que podem n\u00e3o ter valor comercial para a pesca, mas s\u00e3o igualmente valios\u00edssimas para a sa\u00fade dos ecossistemas costeiros e marinhos. O gigantesco mero (Epinephelus itajara), uma esp\u00e9cie criticamente amea\u00e7ada de extin\u00e7\u00e3o no Brasil, por exemplo, passa os primeiros anos de vida no manguezal antes de migrar para o oceano na vida adulta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cO manguezal para n\u00f3s \u00e9 um mundo diferente, n\u00e9? Porque tudo no manguezal se cria; o peixe, o camar\u00e3o, as ostras que a gente come e vende, se cria tudo no manguezal. \u00c9 o nosso ber\u00e7\u00e1rio, n\u00e9?\u201d, diz o pescador e guia tur\u00edstico Sergio Neves, um leg\u00edtimo cai\u00e7ara da Ilha do Cardoso, no litoral Sul de S\u00e3o Paulo.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mesmo dentro de uma unidade de conserva\u00e7\u00e3o, com manguezais extremamente saud\u00e1veis, Neves percebe claramente os efeitos do aquecimento global e das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas sobre a paisagem, com impactos diretos sobre o ecossistema e a vida das comunidades locais, que tiram da natureza o seu sustento. Tempestades, ventanias e outros fen\u00f4menos meteorol\u00f3gicos extremos est\u00e3o cada vez mais frequentes, intensos e destrutivos, segundo ele. A eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar fez aumentar o alcance das mar\u00e9s e a for\u00e7a dos ventos, principalmente nas frentes frias, que tamb\u00e9m parecem chegar com uma frequ\u00eancia cada vez maior. As ondas erodem a costa e jogam areia do oceano para dentro do estu\u00e1rio, soterrando os manguezais.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em 2018, a entrada de uma forte frente fria, aliada a uma mar\u00e9 de lua cheia, sacramentou o rompimento de um trecho de praia na Enseada da Baleia, no extremo sul do Parque Estadual da Ilha do Cardoso, que resultou na abertura de uma nova barra (passagem conectando o oceano e o estu\u00e1rio) e na morte de um grande trecho de manguezal bem \u00e0 frente dela. \u201cFoi um processo erosivo natural, mas ampliado por um evento extremo\u201d, avalia Lignon.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cCom isso, o que acontece \u00e9 que diminui a fartura, n\u00e9? Diminui o peixe; o camar\u00e3o que se reproduz ali deixa de se reproduzir\u201d, explica Neves. \u201cN\u00e3o tendo esse ber\u00e7\u00e1rio, vai diminuir (a pesca) no marz\u00e3o l\u00e1 fora tamb\u00e9m\u201d, completa ele. Palavras da sabedoria cai\u00e7ara, em perfeita sintonia com a ci\u00eancia.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cOs grandes defensores dos manguezais hoje, sem d\u00favida, s\u00e3o as comunidades tradicionais organizadas\u201d, que entendem perfeitamente a import\u00e2ncia desses ecossistemas, diz o professor Coelho Junior, da UPE. Por isso a preserva\u00e7\u00e3o dos manguezais \u00e9 uma das principais bandeiras de gest\u00e3o da \u00c1rea de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental Costa dos Corais, a maior unidade de conserva\u00e7\u00e3o marinha do Brasil, que se estende por 120 quil\u00f4metros entre o litoral Norte de Alagoas e Sul de Pernambuco, regi\u00e3o onde Coelho Junior atua desde que concluiu a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no IO, em 2004. Al\u00e9m de atuar como ber\u00e7\u00e1rios, os manguezais funcionam como um filtro biol\u00f3gico, bloqueando a passagem de sedimentos e poluentes oriundos do continente que, se chegassem ao mar, poderiam comprometer a sa\u00fade dos ecossistemas recifais marinhos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outro patrim\u00f4nio socioambiental que pode ser colocado em risco pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u00e9 a cata do caranguejo, uma das atividades mais ic\u00f4nicas, tradicionais, culturalmente e economicamente importantes associadas aos manguezais. Duas das principais esp\u00e9cies que s\u00e3o alvo desse tipo de pescaria \u2014 o guaiamum (Cardisoma guanhumi) e o caranguejo-u\u00e7\u00e1 (Ucides cordatus) \u2014 dependem das \u00e1reas mais internas e menos inundadas dos manguezais para viver e se reproduzir.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O guaiamum \u00e9 uma esp\u00e9cie amea\u00e7ada de extin\u00e7\u00e3o no Brasil, que vive justamente nessa zona de transi\u00e7\u00e3o entre as florestas alagadas de mangue e a terra firme, onde ocorrem os chamados apicuns, ou plan\u00edcies hipersalinas, que s\u00e3o parte do ecossistema manguezal, mas s\u00e3o inundadas pela mar\u00e9 com menos frequ\u00eancia e n\u00e3o comportam vegeta\u00e7\u00e3o de grande porte. S\u00e3o \u00e1reas cobi\u00e7adas para a constru\u00e7\u00e3o de tanques de camar\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de sal, entre outros empreendimentos. J\u00e1 o caranguejo-u\u00e7\u00e1 vive na lama dos bosques de mangue, mas tamb\u00e9m utiliza essas zonas de transi\u00e7\u00e3o mais secas como ber\u00e7\u00e1rios, segundo o bi\u00f3logo Anders Schmidt, professor da Universidade Federal do Sul da Bahia e coordenador da Rede de Monitoramento de Andadas Reprodutivas de Caranguejos. \u201c\u00c9 l\u00e1 que a gente encontra os filhotes de caranguejo, os indiv\u00edduos que est\u00e3o chegando na popula\u00e7\u00e3o\u201d, explica o professor.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar, a tend\u00eancia \u00e9 que esses apicuns se transformem em florestas de mangue e que essa zona de transi\u00e7\u00e3o mais seca se desloque em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 terra firme, onde o risco de bater de frente com constru\u00e7\u00f5es humanas e acabar desaparecendo \u00e9 enorme. \u201cN\u00e3o tendo esse backup de deslocamento voc\u00ea pode acabar perdendo essas zonas pouco inundadas, que \u00e9 onde se renova a popula\u00e7\u00e3o de caranguejo\u201d, completa Schmidt. \u201c\u00c9 uma \u00e1rea extremamente cr\u00edtica para a sobreviv\u00eancia dessas esp\u00e9cies.\u201d\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo o MapBiomas, a \u00e1rea total de apicuns no Brasil encolheu 14% entre 2001 e 2021 \u2013 de 63 mil para 54 mil hectares.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O colapso populacional dessas esp\u00e9cies \u2014 como j\u00e1 vem acontecendo com o guaiamum, em fun\u00e7\u00e3o da sobrepesca e da perda de habitat \u2014 seria um\u00a0 desastre para milhares de fam\u00edlias de extrativistas que dependem desses crust\u00e1ceos para o seu sustento. Pessoas como Antonio Carlos Borges Amaral, o \u201cToninho\u201d da Ponta de Areia, em Caravelas (BA), que h\u00e1 mais de 20 anos ganha a vida pescando e catando caranguejos nos manguezais do Sul da Bahia. \u201cO mangue \u00e9 tudo pra mim. O sustento da minha fam\u00edlia vem todo do manguezal\u201d, resume o extrativista, de 40 anos, casado e pai de tr\u00eas filhos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A reportagem do Jornal da USP acompanhou Toninho em um dia t\u00edpico de trabalho na Reserva Extrativista de Cassurub\u00e1, uma \u00e1rea protegida de 100 mil hectares onde s\u00f3 os extrativistas locais podem atuar, de acordo com regras estabelecidas num plano de manejo. \u00c9 uma das \u00e1reas mais produtivas para a pesca de caranguejo-u\u00e7\u00e1 no Brasil, de onde sai grande parte dos crust\u00e1ceos que v\u00e3o abastecer mercados e restaurantes da regi\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Toninho \u00e9 um dos poucos extrativistas locais que ainda prefere catar o caranguejo pelo m\u00e9todo tradicional, enfiando a m\u00e3o na lama. Ele usa uma t\u00e9cnica conhecida como \u201cgancho\u201d, que consiste em manipular um vergalh\u00e3o de a\u00e7o, dobrado na ponta, para cutucar o bicho no fundo da toca e pux\u00e1-lo at\u00e9 a superf\u00edcie \u2014 uma varia\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo mais r\u00fastico de \u201cbraceamento\u201d, em que o caranguejo \u00e9 capturado diretamente com a m\u00e3o. (Mais recentemente, a maioria dos extrativistas migrou para uma t\u00e9cnica pol\u00eamica conhecida como \u201credinha\u201d, que utiliza fibras de saco de rafia como armadilha para enredar os caranguejos na entrada das tocas.)\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A maneira com que Toninho l\u00ea os sinais na superf\u00edcie da lama e \u201csente\u201d o animal no interior da toca \u00e9 impressionante; \u00e9 como se o vergalh\u00e3o fosse uma extens\u00e3o t\u00e1til do seu bra\u00e7o. \u201cT\u00e1 beliscando!\u201d, anuncia ele, ofegante, ao ouvir os cliques da pin\u00e7a do caranguejo atacando o gancho. A\u00ed ele segue cutucando e puxando, at\u00e9 o bicho sair do buraco \u2014 que pode chegar a dois metros de profundidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O caranguejo-u\u00e7\u00e1 \u00e9 um bicho de apar\u00eancia amea\u00e7adora, mas que Toninho manipula com a tranquilidade de quem est\u00e1 segurando um bicho de pel\u00facia. Em tr\u00eas horas de trabalho, ele pega mais de 20 caranguejos; o suficiente para alimentar sua fam\u00edlia e ganhar um dinheirinho. \u201cTenho muito orgulho do que eu fa\u00e7o\u201d, afirma Toninho, que vive numa casa de alvenaria pr\u00f3xima ao pier da Ponta de Areia, onde ele amarra sua batera (embarca\u00e7\u00e3o de madeira com motor de popa, t\u00edpica da regi\u00e3o). \u201cSe eu tivesse outro trabalho eu n\u00e3o teria o que tenho hoje atrav\u00e9s do mangue. Gra\u00e7as a Deus tem isso aqui pra gente se manter ainda.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEssa faixinha de territ\u00f3rio sustenta a vida de milh\u00f5es de pessoas\u201d, diz a professora Yara, do IO, olhando para um mapa dos manguezais do Brasil. Perguntada no semin\u00e1rio de julho, em S\u00e3o Paulo, sobre qual seria a medida mais priorit\u00e1ria para a conserva\u00e7\u00e3o dos manguezais no Estado, ela respondeu de forma categ\u00f3rica: \u201cVontade pol\u00edtica. O resto j\u00e1 est\u00e1 feito; a mesa est\u00e1 posta\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte: Jornal da USP &#8211; Texto: Herton Escobar<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Foto: Herton Escobar &#8211; USP Imagens &#8211; Foto do caranguejo u\u00e7\u00e1, na reserva extrativista de Cassurub\u00e1, em Caravelas, no sul da Bahia, que abriga um grande manguezal. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar e aquecimento da atmosfera amea\u00e7am a conserva\u00e7\u00e3o desses ecossistemas costeiros, que s\u00e3o ber\u00e7\u00e1rios da vida marinha e podem conter duas vezes mais carbono por hectare do que florestas tropicais. Confira mat\u00e9ria especial publicada pelo Jornal da USP: Nascido e criado na lama, com um p\u00e9 na terra e outro no [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2837,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-2836","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2836","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2836"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2836\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2838,"href":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2836\/revisions\/2838"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2837"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2836"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2836"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2836"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}