{"id":2713,"date":"2022-11-08T21:43:04","date_gmt":"2022-11-09T00:43:04","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/?p=2713"},"modified":"2022-11-10T16:53:55","modified_gmt":"2022-11-10T19:53:55","slug":"rir-e-preciso-conheca-a-ciencia-por-tras-do-humor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/2022\/11\/08\/rir-e-preciso-conheca-a-ciencia-por-tras-do-humor\/","title":{"rendered":"Rir \u00e9 preciso: conhe\u00e7a a ci\u00eancia por tr\u00e1s do humor"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-2714\" src=\"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/Daniel-Martins-300x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/Daniel-Martins-300x300.jpeg 300w, https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/Daniel-Martins-150x150.jpeg 150w, https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/Daniel-Martins-768x768.jpeg 768w, https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/Daniel-Martins.jpeg 900w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sorrisos, risadas e gargalhadas. Todo mundo traz em si a fun\u00e7\u00e3o do humor desde a mais tenra inf\u00e2ncia. Claro que em algumas pessoas ela est\u00e1 t\u00e3o escondida que nem parece existir \u2013 mas procurando bem, acabamos encontrando. Curioso pelo assunto desde pequeno, e a partir de bases te\u00f3ricas cient\u00edficas, Daniel Martins de Barros mostra em seu livro rec\u00e9m-publicado Rir \u00e9 Preciso a relev\u00e2ncia do tema e garante: h\u00e1 ci\u00eancia por tr\u00e1s do humor. \u201cO riso \u00e9 um fen\u00f4meno f\u00edsico, com origem neurol\u00f3gica e manifesta\u00e7\u00e3o corporal\u201d, define o professor da Faculdade de Medicina da USP ao Jornal da USP.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O livro foi produzido durante a pandemia de covid-19, per\u00edodo em que o humor foi \u201cs\u00edmbolo de resist\u00eancia\u201d, conforme dizia o comediante Paulo Gustavo, que morreu em 2021 pela mesma doen\u00e7a. Na obra, Barros explora os processos f\u00edsicos e mentais que caracterizam o riso e afirma que o humor pode ser uma ferramenta para amenizar adversidades da vida e fortalecer relacionamentos, o que levaria o indiv\u00edduo a uma melhor sa\u00fade f\u00edsica e mental.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">SORRISO DE MONA LISA<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O livro est\u00e1 dividido em tr\u00eas partes: os aspectos que envolvem o corpo, os que est\u00e3o relacionados \u00e0 mente e a sua representa\u00e7\u00e3o na sociedade. Na primeira parte do livro, o autor faz uma an\u00e1lise de uma das obras art\u00edsticas mais famosas do mundo, o quadro de Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. A modelo expressa um singelo e disfar\u00e7ado sorriso que, na vis\u00e3o do autor, \u00e9 bastante amb\u00edguo, caracter\u00edstica que se revela um dos grandes segredos da obra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cPor tr\u00e1s de um sorriso, por exemplo, pode haver uma mir\u00edade de emo\u00e7\u00f5es: alegria, desprezo, vergonha, nervosismo, sedu\u00e7\u00e3o, deboche, constrangimento e maldade&#8221;, relata o autor.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Neste cap\u00edtulo, \u00e9 relatado que um grupo de cientistas, com o aux\u00edlio de um software de reconhecimento facial, concluiu que no sorriso da Mona Lisa havia 83% de felicidade, 9% de nojo, 6% de assustada e 2% de raiva. Outra equipe de neurocientistas tamb\u00e9m fez experi\u00eancia tendo como objeto o quadro. Eles dividiram os l\u00e1bios do sorriso ao meio e espelharam cada metade, obtendo dois sorrisos diferentes. Em seguida, perguntaram aos volunt\u00e1rios o que eles viam nas duas imagens. Em resposta, 92% das pessoas consideraram que o quadro da direita expressava alegria quando comparado com o da esquerda. Sobre a imagem da esquerda, 83% entenderam que era uma express\u00e3o neutra, 12% acharam que tinha cara de nojo e 4,7% interpretaram como tristeza.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">DUCHENNE: SORRISO FALSO E SORRISO SINCERO<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cO sorriso que tem origem na emo\u00e7\u00e3o positiva n\u00e3o se limita \u00e0 boca\u201d, revela Barros. \u201cEnvolve simultaneamente a contra\u00e7\u00e3o do m\u00fasculo zigom\u00e1tico principal (na face), que eleva os cantos da boca, e do m\u00fasculo orbicular do olho, que aumenta as bochechas e forma os p\u00e9s de galinha ao redor dos olhos.\u201d Essa descoberta foi feita pelo m\u00e9dico neurologista franc\u00eas Benjamin Amand Duchenne depois de uma longa pesquisa de estudo de express\u00e3o facial humana feita com pacientes em seu consult\u00f3rio. Duchenne ficou conhecido como cientista que descreveu a fundo diversos transtornos neurol\u00f3gicos e at\u00e9 hoje \u00e9 refer\u00eancia no assunto. A distrofia de Duchenne \u00e9 um desses transtornos que atingem crian\u00e7as do sexo masculino. Uma doen\u00e7a gen\u00e9tica degenerativa e incapacitante que deteriora progressivamente os m\u00fasculos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O que Duchenne fez foi registrar em fotografia as express\u00f5es faciais de seus pacientes que tinham alguns grupos de m\u00fasculos do rosto estimulados, induzindo por contra\u00e7\u00f5es e, consequentemente, a uma simula\u00e7\u00e3o de um sorriso. O resultado obtido dessa experi\u00eancia foi um sorriso caricatural e pouco convincente, ou seja, um sorriso falso. Intrigado, Duchenne desligou os eletrodos e contou uma piada e a\u00ed sim obteve um sorriso largo, alegre e leg\u00edtimo no rosto de seus pacientes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao avaliar as diferen\u00e7as entre as imagens, Duchenne descobriu o que distingue um sorriso falso de um verdadeiro. O sorriso sincero, al\u00e9m de sim\u00e9trico, que se origina de uma emo\u00e7\u00e3o positiva, n\u00e3o se limita \u00e0 boca, conforme descreve em seu livro:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cA emo\u00e7\u00e3o de franca alegria \u00e9 expressa no rosto pela contra\u00e7\u00e3o combinada do m\u00fasculo zigom\u00e1tico maior e orbicular do olho (o famoso p\u00e9 de galinha). O primeiro obedece \u00e0 vontade, mas o segundo s\u00f3 entra em jogo pelas doces emo\u00e7\u00f5es da alma. (\u2026) a alegria falsa, o riso enganoso, n\u00e3o pode provocar a contra\u00e7\u00e3o deste \u00faltimo m\u00fasculo. (\u2026) O m\u00fasculo \u00e0 volta do olho n\u00e3o obedece \u00e0 vontade; s\u00f3 entra em a\u00e7\u00e3o por um sentimento verdadeiro, por emo\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel. A sua in\u00e9rcia, ao sorrir, desmascara um falso amigo\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">RISO REDENTOR<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Embora o livro traga in\u00fameras refer\u00eancias que explicam as m\u00faltiplas facetas do rir (o que \u00e9 o riso, como, por que, onde e quando rimos e quem ri do qu\u00ea), como profissional de sa\u00fade mental Barros recomenda mesmo que as pessoas tomem consci\u00eancia da import\u00e2ncia do humor em seu dia a dia. H\u00e1 v\u00e1rios tipos de sorriso: o de nervoso, o de medo, o sorriso largo, o artificial, o redentor, dentre outros. O humor alivia o estresse, ameniza emo\u00e7\u00f5es negativas, nos leva a criar distanciamento das experi\u00eancias dolorosas imediatas e fortalece rela\u00e7\u00f5es humanas. Foi o que constatou sobreviventes do Holocausto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Neste contexto, Barros diz que o poder do sorriso n\u00e3o \u00e9 necessariamente transit\u00f3rio. A risada n\u00e3o e uma solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica, mas aponta para a realidade que est\u00e1 al\u00e9m das circunst\u00e2ncias imediatas. Ele n\u00e3o \u00e9 capaz de nos fazer esquecer definitivamente da morte de um ente querido, por exemplo, tampouco de impedi-la, mas pode superar o sofrimento que a morte causou. Para confirmar sua tese, cita um estudo feito com vi\u00favas por pesquisadores da Universidade da Columbia, em Nova York, e da Universidade da Calif\u00f3rnia, ambas nos Estados Unidos. Aquelas que foram capazes de dar risos de Duchenne \u2013 os emocionais e verdadeiros \u2013 sentiam menos raiva, menos ang\u00fastia e mais emo\u00e7\u00f5es positivas e ainda mantinham relacionamentos melhores com outras pessoas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">NECESSIDADE DE HUMOR<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Barros afirma que o humor \u00e9 uma necessidade porque ele possibilita reduzir a dor da alma, mesmo que por breve momento; tamb\u00e9m \u00e9 um instrumento de autopreserva\u00e7\u00e3o, de comunica\u00e7\u00e3o e de cria\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos. Um testemunho famoso sobre o uso do humor como forma de autopreserva\u00e7\u00e3o nos campos de concentra\u00e7\u00e3o vem do m\u00e9dico Viktor Emil Frankl, neurologista e psiquiatra, prisioneiro de 1942 a 1945, per\u00edodo em perdeu o pai, a m\u00e3e e a esposa. Uma das ferramentas essenciais para Frankl lidar com esse terr\u00edvel momento foi o humor. Ele contava que estimulava os outros que estavam junto com ele a ter a mesma postura. Ele os desafiava a pensar todos os dias em algo engra\u00e7ado que aconteceria depois que fossem libertados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">SAINDO DA PANDEMIA<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A pandemia foi um per\u00edodo de grande estresse para todo mundo \u2013 claro que mais para uns do que para outros \u2013 mas todos foram afetados de alguma forma. Esse estresse representa, sim, um risco \u00e0 sa\u00fade mental, j\u00e1 que se trata de um desgaste emocional importante. Felizmente n\u00e3o houve o tsunami de transtornos mentais que se chegou a prenunciar, mas a quest\u00e3o ganhou import\u00e2ncia e talvez hoje mais gente esteja atenta e buscando tratamento. As elei\u00e7\u00f5es foram outro golpe, em parte por conta da polariza\u00e7\u00e3o, que estimula a raiva, e em parte por conta do terrorismo de parte a parte, que estimula o medo. O que vemos, portanto, s\u00e3o pessoas mais estressadas, cansadas, com mais emo\u00e7\u00f5es negativas, mas n\u00e3o necessariamente mais doentes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em ambos os contextos o humor pode ser uma ferramenta para lidar com a situa\u00e7\u00e3o imediata e para reconstru\u00e7\u00e3o posterior. Rir durante um problema n\u00e3o precisa ser desrespeitoso \u2013 desde que n\u00e3o tripudiemos do sofrimento em si, muitas situa\u00e7\u00f5es adversas podem ser amenizadas pelo humor. Intuitivamente n\u00f3s j\u00e1 fazemos isso, como quando num vel\u00f3rio contamos casos divertidos que tivemos com a pessoa falecida ou como muitas vezes contornamos uma conversa pol\u00edtica mais tensa encontrando pontos que fa\u00e7am nossos interlocutores rirem conosco.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O livro foi pensado para um mundo saindo da pandemia, quando precisar\u00edamos de instrumentos para nos reerguer emocionalmente, levantarmos e seguirmos em frente. O humor \u00e9 uma excelente forma de autorregula\u00e7\u00e3o emocional.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cRir \u00e9 preciso\u201d tem 223 p\u00e1ginas, foi publicado pela Editora Sextante em 2021. O autor, Daniel de Barros, \u00e9 m\u00e9dico, professor e pesquisador no Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Cl\u00ednicas da FMUSP.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ele mant\u00e9m ainda os seguintes canais para tratar de assuntos de sa\u00fade metal: o podcast Humanamente; o canal no YouTube DanielMartinsdeBarros; e as redes sociais @danielmbarros (Instagram e Twitter).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mais informa\u00e7\u00f5es: daniel.barros@usp.br com Daniel Martins de Barros.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte: Jornal da USP &#8211; texto Ivanir Ferreira<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Foto: USP &#8211; arquivo pessoal do autor<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sorrisos, risadas e gargalhadas. Todo mundo traz em si a fun\u00e7\u00e3o do humor desde a mais tenra inf\u00e2ncia. 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