{"id":2507,"date":"2022-09-20T18:15:41","date_gmt":"2022-09-20T21:15:41","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/?p=2507"},"modified":"2022-09-25T15:54:41","modified_gmt":"2022-09-25T18:54:41","slug":"estudo-aponta-para-profundas-desigualdades-na-mortalidade-de-criancas-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/2022\/09\/20\/estudo-aponta-para-profundas-desigualdades-na-mortalidade-de-criancas-no-brasil\/","title":{"rendered":"Estudo aponta para profundas desigualdades na mortalidade de crian\u00e7as no Brasil"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_2508\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Crianc\u0327aIndi\u0301gena-Agencia-Brasil.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2508\" class=\"size-full wp-image-2508\" src=\"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Crianc\u0327aIndi\u0301gena-Agencia-Brasil.jpeg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"768\" srcset=\"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Crianc\u0327aIndi\u0301gena-Agencia-Brasil.jpeg 1024w, https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Crianc\u0327aIndi\u0301gena-Agencia-Brasil-300x225.jpeg 300w, https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Crianc\u0327aIndi\u0301gena-Agencia-Brasil-768x576.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2508\" class=\"wp-caption-text\">Bras\u00edlia &#8211; Ind\u00edgenas de todo o Brasil chegam \u00e0 Bras\u00edlia para o Acampamento Terra Livre.<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pesquisa do Cidacs\/Fiocruz Bahia publicada no The Lancet identifica o racismo na expectativa de vida. De janeiro a agosto de 2019 morreram 16 crian\u00e7as ind\u00edgenas de Alto do Rio Purus, no Acre, a mais nova tinha um m\u00eas. Todas por diarreia. O caso chama aten\u00e7\u00e3o, e a ci\u00eancia mostra que esta n\u00e3o \u00e9 uma crise r\u00e1pida, mas uma condi\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica decorrente da condi\u00e7\u00e3o de vida e sa\u00fade das crian\u00e7as ind\u00edgenas brasileiras. De acordo com artigo publicado na edi\u00e7\u00e3o de outubro do The Lancet Global Health, liderado pelo Centro de Integra\u00e7\u00e3o de Dados e Conhecimentos para Sa\u00fade (Cidacs\/Fiocruz Bahia), as crian\u00e7as ind\u00edgenas t\u00eam 14 vezes mais chances de morrer por diarreia. E entre as pretas esse risco \u00e9 de 72%, todas elas comparadas com as crian\u00e7as nascidas de m\u00e3es brancas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 \u00e9 conhecido pela ci\u00eancia que, assim como idosos, as crian\u00e7as menores de 5 anos est\u00e3o mais suscet\u00edveis aos riscos decorrentes do lugar em que vivem, da qualidade da \u00e1gua, da falta de acesso ao saneamento b\u00e1sico, da falta de acesso a servi\u00e7os de sa\u00fade, da escolaridade, entre outros fatores. E a pergunta para este estudo era, dentro dessas condi\u00e7\u00f5es, ser\u00e1 que ser crian\u00e7a e estar atravessada pelo fator etnia faz diferen\u00e7a no viver ou morrer? \u201cO racismo ele opera como fator que vai determinar as condi\u00e7\u00f5es de vida dessa crian\u00e7a, os anos de escolaridade da m\u00e3e, o local que nasce, por isso \u00e9 importante ser considerado\u201d, explica a pesquisadora associada ao Cidacs que liderou o estudo, Poliana Rebou\u00e7as.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O estudo observou 19.515.843 milh\u00f5es de crian\u00e7as nascidas entre 1\u00ba de janeiro de 2012 e 31 de dezembro de 2018. A partir dessa amostra expressiva coletada do Sistema de Nascidos Vivos (Sinasc), conferiu-se quantas e quais dessas crian\u00e7as tamb\u00e9m apareceram em outro sistema, o Sistema de Mortalidade (SIM). Os dados extra\u00eddos em 2020 constataram que 224.213 crian\u00e7as menores de 5 anos foram encontradas no SIM. \u201cE o que a gente traz nesse estudo \u00e9 que essas mortes, muitas vezes, ocorrem por causa evit\u00e1veis, como diarreia, desnutri\u00e7\u00e3o, pneumonia e gripe\u201d, detalha Poliana.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como todo estudo epidemiol\u00f3gico, este tamb\u00e9m se refere ao risco comparado. Neste caso, o grupo usado como base de compara\u00e7\u00e3o \u00e9 o das crian\u00e7as nascidas de m\u00e3es brancas, neste mesmo per\u00edodo, sempre em rela\u00e7\u00e3o a outros grupos, como \u00e9 o caso de crian\u00e7as de m\u00e3es pretas ou pardas. Para o caso das m\u00e3es pretas, h\u00e1 39% a mais de risco para que a vida seja interrompida antes mesmo dos 5 anos. Para as crian\u00e7as filhas de m\u00e3es pretas, quando se pensa na causa da morte, h\u00e1 duas vezes mais risco de morrer por m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A pesquisa tamb\u00e9m observou as causas de morte: diarreia, m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o e pneumonia s\u00e3o os desfechos mais associados \u00e0 morte de crian\u00e7as com menos de 5 anos. Se a diarreia afeta 14 vezes mais a vida das crian\u00e7as ind\u00edgenas, a m\u00e1-nutri\u00e7\u00e3o chega a 16 e a pneumonia a 7 vezes. Entre as mulheres pretas, tamb\u00e9m h\u00e1 risco de que percam seus filhos por estes desfechos. Esses riscos foram quantificados em 72% (diarreias), 78% (pneumonia) e 2 vezes mais (m\u00e1-nutri\u00e7\u00e3o). Tudo isso em compara\u00e7\u00e3o com as crian\u00e7as nascidas de m\u00e3es brancas. Quando pensado em causas acidentais, as crian\u00e7as filhas de m\u00e3es pretas t\u00eam 37% mais riscos de morrerem do que as de m\u00e3es brancas. J\u00e1 entre os ind\u00edgenas, esse risco \u00e9 aumentado para 74%.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">COMO S\u00c3O ESSAS M\u00c3ES?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Entre as vari\u00e1veis observadas estava o status em termos de relacionamento dessas m\u00e3es: 52% das mulheres pretas apresentavam estado civil solteira, entre as ind\u00edgenas essa porcentagem \u00e9 de 43%, as pardas 45% e entre as brancas 36%. Al\u00e9m de vivenciarem mais a maternidade solo, elas integram tamb\u00e9m uma fatia importante das que t\u00eam quatro filhos (tr\u00eas filhos vivos na hora do parto e o que est\u00e1 nascendo). Esse grupo \u00e9 liderado pelas ind\u00edgenas que t\u00eam mais filhos: elas s\u00e3o 34%, as pretas 14%, as pardas 12% e as brancas 6%.\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um fator importante para a sobreviv\u00eancia das crian\u00e7as e das m\u00e3es \u00e9 que realizem pelo menos seis consultas de pr\u00e9-natal. Por isso, a pesquisa observou quem realizou menos de tr\u00eas consultas; o grupo que menos esteve sob estes cuidados de sa\u00fade foi o das m\u00e3es ind\u00edgenas, em que quase um ter\u00e7o (29%) delas fez metade do recomendado pelas organiza\u00e7\u00f5es de sa\u00fade. Essa propor\u00e7\u00e3o entre pretas e pardas foi igual, 11%, e j\u00e1 entre as brancas, apenas 5%. Refor\u00e7ando o que j\u00e1 foi documentado em outras pesquisas: as desigualdades raciais das barreiras de acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade materna e suas graves consequ\u00eancias para a sa\u00fade materno-infantil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O estudo indica que faltam recursos para que reduzam as desigualdades \u00e9tnico-raciais para as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, negras, pardas e pretas e isso resulta em uma realidade desfavor\u00e1vel para estes grupos. \u201cJ\u00e1 existem as pol\u00edticas Nacional de Sa\u00fade Integral do Povo Ind\u00edgena desde 2002 e da Pol\u00edtica Nacional de Sa\u00fade Integral da Popula\u00e7\u00e3o Negra desde 2006, mas elas precisam ter mais recursos para que sejam implementadas e o estudo mostra essa necessidade\u201d, completa Poliana Rebou\u00e7as.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A pesquisa explica que, no Brasil, m\u00e3es negras, pardas ou pretas ,e ind\u00edgenas vivem em condi\u00e7\u00f5es desfavor\u00e1veis, com menor escolaridade, menor frequ\u00eancia ou in\u00edcio tardio do pr\u00e9-natal e residem mais distantes dos servi\u00e7os de sa\u00fade durante o parto. Essas circunst\u00e2ncias de vida resultam em maior risco de desfechos negativos, como baixo peso ao nascer, nascer pequeno para a idade gestacional, prematuridade e aumento da incid\u00eancia de doen\u00e7as evit\u00e1veis, o que aumenta o risco de mortalidade infantil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A prematuridade tamb\u00e9m \u00e9 um fator de maior preval\u00eancia entre as crian\u00e7as ind\u00edgenas e est\u00e1 presente em 15% dos nascimentos. Isso significa que, para cada dez beb\u00eas, mais de um nasceu antes do tempo, o que afeta diretamente o seu desenvolvimento. Estes beb\u00eas ind\u00edgenas nasceram com menos de 2,5 Kg, em 90% dos casos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O estudo usou informa\u00e7\u00f5es do beb\u00ea e das m\u00e3es que s\u00e3o disponibilizadas pelo Sinasc, tais como ra\u00e7a\/cor, local em que vive, escolaridade da m\u00e3e, se est\u00e1 em um relacionamento est\u00e1vel no momento do parto, quantas consultas de pr\u00e9-natal foram realizadas etc. Para criar grupos comparativos, \u00e9 preciso avaliar as vari\u00e1veis, ou seja, essas informa\u00e7\u00f5es que v\u00e3o nos formul\u00e1rios de sa\u00fade. Neste caso, as informa\u00e7\u00f5es constam na Declara\u00e7\u00e3o de Nascido Vivo assinado por um (a) m\u00e9dico (a), a mesma que serve para fazer o Registro de Nascimento do beb\u00ea e lhe dar o status de cidad\u00e3o brasileiro.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">INTEGRA\u00c7\u00c3O DE DADOS<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No Cidacs\/Fiocruz Bahia \u00e9 feita uma integra\u00e7\u00e3o de dados. O que significa? Quer dizer que se busca encontrar informa\u00e7\u00f5es de uma mesma pessoa em duas ou mais bases de dados (sistemas de informa\u00e7\u00f5es). Neste estudo, a partir de um plano que os cientistas tra\u00e7aram, as 19 milh\u00f5es de crian\u00e7as nascidas entre 1\u00ba janeiro de 2012 e 31 de dezembro de 2018 e que constam no Sistema Nacional de Nascidos Vivos foram \u201cbuscadas\u201d tamb\u00e9m no Sistema de Mortalidade (SIM) e 224.213 estavam l\u00e1.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa busca \u00e9 conhecida como linkage, que vem do linkar, unir. Essa parte n\u00e3o passa pelo cientista de sa\u00fade e sim pela Plataforma de Dados do Cidacs, que atua desde a sele\u00e7\u00e3o do que se busca em cada sistema de informa\u00e7\u00e3o at\u00e9 a extra\u00e7\u00e3o da base. Ou seja, a entrega das informa\u00e7\u00f5es alinhadas. Uma vez que as informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram pensadas na pesquisa cient\u00edfica, o desafio come\u00e7a desde as diferen\u00e7as como cada dado \u00e9 solicitado pelo usu\u00e1rio. Por exemplo: um sistema pede filia\u00e7\u00e3o, e no outro, nome da m\u00e3e e os dois s\u00e3o a mesma vari\u00e1vel. Tais diferen\u00e7as s\u00e3o pensadas pela Curadoria de Dados do Cidacs e passam por processamento da equipe de Produ\u00e7\u00e3o de Dados, engenheiros, cientistas e estat\u00edsticos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Antes mesmo de realizar, o Cidacs precisa planejar e muitas vezes criar uma forma para resolver problemas cient\u00edficos. Para a integra\u00e7\u00e3o dessas bases, foi usado o algoritmo Cidacs-RL, desenvolvido por ex-bolsistas do Centro. Com base nos conhecimentos de epidemiologia, s\u00e3o separados os grupos, neste caso, o tempo de nascimento, como ter menos de 27 dias, ter menos de um ano de vida e estar entre um ano e 4 anos, 11 meses e 29 dias. Ent\u00e3o cada grupo \u00e9 comparado entre semelhantes para que a compara\u00e7\u00e3o seja adequada ao que a ci\u00eancia j\u00e1 diz sobre cada est\u00e1gio de vida. Uma vez que rec\u00e9m-nascidos n\u00e3o poderiam ser comparados a uma crian\u00e7a de 4 anos, por exemplo. E cada um dos est\u00e1gios s\u00e3o assim definidos pelos conhecimentos consolidados que a ci\u00eancia da sa\u00fade re\u00fane sobre este grupo et\u00e1rios.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Artigo: Ethno-Racial inequalities and child mortality in Brazil: A nationwide longitudinal 4 study of 19 million newborns<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte: Cidacs\/Fiocruz Bahia<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Foto: Marcelo Camargo &#8211; Ag\u00eancia Brasil<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisa do Cidacs\/Fiocruz Bahia publicada no The Lancet identifica o racismo na expectativa de vida. De janeiro a agosto de 2019 morreram 16 crian\u00e7as ind\u00edgenas de Alto do Rio Purus, no Acre, a mais nova tinha um m\u00eas. Todas por diarreia. 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