{"id":2292,"date":"2022-07-17T16:48:07","date_gmt":"2022-07-17T19:48:07","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/?p=2292"},"modified":"2022-08-29T16:50:27","modified_gmt":"2022-08-29T19:50:27","slug":"minha-cabeca-esta-nas-estrelas-mas-eu-vivo-na-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/2022\/07\/17\/minha-cabeca-esta-nas-estrelas-mas-eu-vivo-na-terra\/","title":{"rendered":"Minha cabe\u00e7a est\u00e1 nas estrelas, mas eu vivo na Terra"},"content":{"rendered":"<div class=\"post-description-box\">\n<p class=\"post-description\"><strong><a href=\"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/imagem_1207221657647321.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-2293\" src=\"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/imagem_1207221657647321.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/imagem_1207221657647321.jpg 1000w, https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/imagem_1207221657647321-300x300.jpg 300w, https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/imagem_1207221657647321-150x150.jpg 150w, https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/imagem_1207221657647321-768x768.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p class=\"post-description\"><strong>Entrevista com o astrof\u00edsico Alan Alves Brito, ganhador do Pr\u00eamio Jos\u00e9 Reis de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, publicada no Ci\u00eancia na Rua.<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"social-icons-box\">Leia entrevista publicada no Ci\u00eancia na Rua com o astrof\u00edsico Alan Alves Brito, ganhador do Pr\u00eamio Jos\u00e9 Reis de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica:<\/div>\n<div class=\"rich-text-block w-richtext\">\n<p>No fim de junho, o astrof\u00edsico Alan Alves Brito foi anunciado como vencedor do Pr\u00eamio Jos\u00e9 Reis de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, concedido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq). O pr\u00eamio \u00e9 concedido anualmente, com tr\u00eas categorias que se alternam: \u201cjornalista em ci\u00eancia e tecnologia\u201d, \u201cinstitui\u00e7\u00e3o ou ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cpesquisador e escritor\u201d, que foi a deste ano. De acordo com a comiss\u00e3o julgadora, a escolha se deu pela pluralidade de trabalhos de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, com foco relevante na diversidade, equidade e inclus\u00e3o social. Natural de Feira de Santana, no interior da Bahia, Alan (pronuncia-se \u201c\u00e1lan\u201d), 44 anos, \u00e9 professor do Instituto de F\u00edsica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) desde 2014 e tem <a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do\">extensa produ\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0tanto em pesquisa como na divulga\u00e7\u00e3o de ci\u00eancias, incluindo a publica\u00e7\u00e3o de seis livros no curto intervalo entre 2019 e 2022.<\/p>\n<p>Na \u00faltima quarta-feira, ele conversou com o Ci\u00eancia na Rua e contou um pouco de sua trajet\u00f3ria, desde o encanto pela astronomia ainda muito menino, passando pela divulga\u00e7\u00e3o em sa\u00fade na adolesc\u00eancia, pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), onde fez mestrado e doutorado, pelo Chile e pelo quilombo Morada da Paz, no Rio Grande do Sul, onde criou um projeto fascinante em colabora\u00e7\u00e3o com os moradores. Mais do que narrar sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria, o professor, pesquisador e escritor reflete de forma contundente sobre a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e a educa\u00e7\u00e3o superior, os diferentes caminhos da produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e a rela\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e sociedade no Brasil. Veja abaixo os principais trechos da conversa.<\/p>\n<p><strong>POR QUE VOC\u00ca FOI ESTUDAR F\u00cdSICA?<\/strong><\/p>\n<p>A f\u00edsica foi um ritual de passagem para estudar astronomia, que \u00e9 minha grande paix\u00e3o da inf\u00e2ncia. Decidi muito cedo, por volta dos 8 anos de idade, que queria estudar astronomia, que eu seria um astr\u00f4nomo. E sempre soube que, para realizar esse sonho, eu precisava estudar f\u00edsica. Num primeiro momento, pensei at\u00e9 em n\u00e3o estudar f\u00edsica, porque na minha cidade n\u00e3o tinha o curso, fiz parte da primeira turma do curso de f\u00edsica da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Eu ia estudar matem\u00e1tica, j\u00e1 havia esse curso de matem\u00e1tica h\u00e1 um bom tempo. A decis\u00e3o pela f\u00edsica sempre esteve atrelada \u00e0 astronomia. E foi uma escolha muito potente na minha vida, porque a f\u00edsica trouxe para mim experi\u00eancias e questionamentos e possibilidades que de fato tornaram minha caminhada pela astronomia muito mais interessante.<\/p>\n<p><strong>O <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/cnpq\/pt-br\/assuntos\/noticias\/premios\/conheca-o-vencedor-do-42o-premio-jose-reis-de-divulgacao-cientifica-e-tecnologica\">TEXTO DO CNPQ SOBRE O PR\u00caMIO<\/a>\u00a0DIZ QUE VOC\u00ca TRABALHOU COMO DIVULGADOR DE CI\u00caNCIAS DA SA\u00daDE NA ADOLESC\u00caNCIA. QUE HIST\u00d3RIA \u00c9 ESSA? CONTE UM POUQUINHO POR FAVOR.<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma hist\u00f3ria que realmente poucas pessoas sabem, mas eu fui bolsista, fiz parte de um programa chamado Prosad, Programa de Sa\u00fade do Adolescente, do estado da Bahia, dos 12 at\u00e9 os 21 anos. Eu fui treinado, inclusive, pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, esse programa era vinculado ao primeiro Centro de Sa\u00fade de Feira de Santana. T\u00ednhamos um acompanhamento, era uma equipe com psic\u00f3loga, enfermeira, assistente social e adolescentes multiplicadores de sa\u00fade. Havia encontros semanais com a equipe de sa\u00fade, com a psic\u00f3loga, encontros quinzenais com os grupos multiplicadores, e a\u00ed \u00edamos \u00e0s escolas, \u00e0s feiras de sa\u00fade, faz\u00edamos encontros regionais sobre adolesc\u00eancia, porque eram as grandes quest\u00f5es da adolesc\u00eancia: dificuldade de aprendizagem, as quest\u00f5es das infec\u00e7\u00f5es \u2013 que na \u00e9poca a gente chamava de doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis, mas s\u00e3o as infec\u00e7\u00f5es sexualmente transmiss\u00edveis \u2013, a quest\u00e3o de HIV\/aids, quest\u00e3o das drogas, ent\u00e3o a gente foi treinado pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade para atuar como multiplicadores, a quest\u00e3o da gravidez n\u00e3o planejada na fase da adolesc\u00eancia\u2026 Criamos muitas coisas, cartilhas, encontros\u2026 E ali tamb\u00e9m, aos 13 anos, eu criei um clube de ci\u00eancias no meu bairro, a partir do programa Ciranda da Ci\u00eancia, que n\u00e3o foi muito longe. Acho que ali eu j\u00e1 sentia as dificuldades de financiamento \u00e0 pesquisa (risos), porque t\u00ednhamos que fazer tarefas, a Funda\u00e7\u00e3o Roberto Marinho nos pedia, e eu n\u00e3o conseguia, n\u00e3o tinha dinheiro para fazer as tarefas que eles pediam e mandar de volta. Porque era assim, a gente tinha que fazer algumas tarefas, e eles iam alimentando o clube a partir da\u00ed. Mas a gente n\u00e3o tinha dinheiro, acabou morrendo.<\/p>\n<p>O Prosad foi um momento muito potente da minha adolesc\u00eancia porque fui muito acompanhado por essa equipe de profissionais, havia esse conv\u00edvio com outros adolescentes, e essas experi\u00eancias, de falar de ci\u00eancia, de educa\u00e7\u00e3o, de sa\u00fade, ent\u00e3o realmente tenho boas mem\u00f3rias. Participei de congressos nacionais, em Salvador, voltados para a adolesc\u00eancia. Comecei no Prosad em 1991, 1992, o Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente tinha acabado de ser promulgado, ent\u00e3o me lembro que fizemos muitas oficinas sobre o ECA. Tamb\u00e9m havia um programa muito forte no interior da Bahia para erradica\u00e7\u00e3o do trabalho infantil. Fizemos v\u00e1rios cursos com o MOC, Movimento de Organiza\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria, em Feira de Santana, ent\u00e3o viaj\u00e1vamos muito para o interior, para a regi\u00e3o do sisal\u2026 Minha adolesc\u00eancia foi movimentada.<\/p>\n<p><strong>VOC\u00ca CRESCEU DIVULGANDO CI\u00caNCIA.<\/strong><\/p>\n<p>Cresci divulgando ci\u00eancias. Participava tamb\u00e9m, junto com essa equipe de profissionais, do P\u00f3lo Feira de Psican\u00e1lise, e eu fui um adolescente que fazia discuss\u00f5es com os textos de Lacan, de Freud, ent\u00e3o foi um ambiente muito rico. Hoje, quando olho para tr\u00e1s, acho que essa experi\u00eancia explica muita coisa.<\/p>\n<p><strong>AINDA EXISTE O PROSAD?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que n\u00e3o existe mais. Nessa \u00e9poca, havia um movimento muito grande de pol\u00edticas p\u00fablicas para tentar maneiras de barrar a infec\u00e7\u00e3o por HIV, pelo que a gente chama hoje de infec\u00e7\u00f5es sexualmente transmiss\u00edveis, havia muito mais pol\u00edticas, v\u00e1rios projetos de sa\u00fade com foco na adolesc\u00eancia. Tamb\u00e9m havia ali uma discuss\u00e3o muito forte em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s laqueaduras de trompa das mulheres pobres, negras. Havia oficinas de sensibiliza\u00e7\u00e3o, particip\u00e1vamos de muitas oficinas buscando trabalhar as emo\u00e7\u00f5es\u2026 Mas hoje em dia, infelizmente, muitos desses programas terminaram, n\u00e3o t\u00eam incentivo. Inclusive a inscri\u00e7\u00e3o para o vestibular \u2013 eu fiz vestibular aos 17 anos \u2013 paguei com uma dessas bolsas que recebi do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Isso me lembro bem.<\/p>\n<p><strong>LEMBRO DE HAVER MUITA CAMPANHA SOBRE AIDS NOS ANOS 80, COME\u00c7O DOS 90\u2026<\/strong><\/p>\n<p>E n\u00f3s t\u00ednhamos os materiais todos, os prot\u00f3tipos dos \u00f3rg\u00e3o internos, dos \u00f3rg\u00e3os externos, p\u00f4steres imensos com \u00f3rg\u00e3os reprodutores infectados, a gente usava isso em sala de aula\u2026 Foi muito rica, essa experi\u00eancia, esse programa, foi um programa que me ajudou muito. Inclusive na minha pr\u00f3pria maneira de me relacionar com a vida. Foi realmente incr\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>SEUS PROJETOS DE MESTRADO E DOUTORADO TINHAM A VER COM QU\u00cdMICA, \u00c9 ISSO? COMPOSI\u00c7\u00c3O QU\u00cdMICA DE CORPOS CELESTES?<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. Tanto no mestrado como no doutorado, a\u00ed j\u00e1 na Universidade de S\u00e3o Paulo. Fiz a gradua\u00e7\u00e3o em f\u00edsica no interior da Bahia. Entrei na primeira turma do curso de f\u00edsica da UEFS e, j\u00e1 em 1998, ganhei uma bolsa do CNPq, do Pibic (Programa Institucional de Bolsas de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica). Fui bolsista por 3 anos, j\u00e1 trabalhei com astronomia, numa \u00e1rea que a gente chama de astronomia de posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A\u00ed, no mestrado e no doutorado, mudei de \u00e1rea. Fui morar na USP, e me especializei numa metodologia que a gente chama de espectroscopia, que \u00e9 estudar a luz das estrelas. Eu trabalhava com estrelas velhas, com 10 bilh\u00f5es de anos, e meu objetivo era justamente entender como os diferentes elementos qu\u00edmicos da tabela peri\u00f3dica \u2013 oxig\u00eanio, magn\u00e9sio, sil\u00edcio, c\u00e1lcio, tit\u00e2nio, b\u00e1rio, eur\u00f3pio\u2026 \u2013 se formaram e como nos ajudam a entender a evolu\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o de pr\u00f3pria gal\u00e1xia. A espectroscopia \u00e9 muito parecida com a dispers\u00e3o da luz, como se forma, por exemplo, um arco-\u00edris. \u00c9 a mesma ideia: dessa dispers\u00e3o da luz em diferentes cores. Fazemos isso com a luz vinda das estrelas e, a partir da\u00ed, a gente consegue reproduzir em laborat\u00f3rio o espectro observado dessas diferentes estrelas. Ent\u00e3o, no mestrado e no doutorado, trabalhei com essa metodologia e com a evolu\u00e7\u00e3o qu\u00edmica da Via L\u00e1ctea.<\/p>\n<p><strong>E DESDE O DOUTORADO VOC\u00ca TRABALHA COM PROGRAMAS DE EXTENS\u00c3O OU J\u00c1 VEM DE ANTES?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, desde a gradua\u00e7\u00e3o eu trabalhei com projeto de extens\u00e3o. Na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o eu fiz alguns projetos, nos p\u00f3s-doutorados, ent\u00e3o sempre atuei com divulga\u00e7\u00e3o de ci\u00eancias. De maneira estruturada, organizada, criando projetos, como eu tenho feito, quando entro na universidade em 2014. Mas durante minha forma\u00e7\u00e3o, tanto na gradua\u00e7\u00e3o como na p\u00f3s, eu desenvolvi projetos, atividades de extens\u00e3o. N\u00e3o tanto quanto eu gostaria, porque a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o foi um per\u00edodo de muitas coisas, muitos desafios, metodologias novas, mas ainda assim, sempre que podia, eu estava ali.<\/p>\n<p><strong>COMO VOC\u00ca ATUA EM MUITOS PROGRAMAS DE EXTENS\u00c3O, VAMOS TRATAR S\u00d3 DE UM, O AKOTIRENE KILOMBO CI\u00caNCIA. O QUE ESSE NOME QUER DIZER? DE ONDE LHE VEIO A INSPIRA\u00c7\u00c3O PARA JUNTAR QUILOMBO, QUE \u00c9 ESPA\u00c7O DE RESIST\u00caNCIA E LUTA, BEM CH\u00c3O, BEM TERRA, COM F\u00cdSICA E ASTRONOMIA, CAMPOS CIENT\u00cdFICOS QUE DE CERTA MANEIRA MIRAM ORIGEM, FOR\u00c7AS E INFINITUDE?<\/strong><\/p>\n<p>Fui convidado para dar uma aula de astronomia para estudantes do curso de Licenciatura em Educa\u00e7\u00e3o do Campo da UFRGS. E, numa dessas aulas, encontrei Yashodhan, que \u00e9 uma quilombola e a matriarca, a ialax\u00e9 dessa comunidade, chamada Morada da Paz, que fica aqui pr\u00f3ximo de Porto Alegre. N\u00e3o t\u00e3o pr\u00f3ximo. E a Yashodhan me convidou a conhecer a comunidade quilombola, ela ficou muito impactada com a aula que eu tinha dado sobre os elementos qu\u00edmicos e me chamou para ir l\u00e1 fazer um curso que eles chamam de desforma\u00e7\u00e3o. O curso de desforma\u00e7\u00e3o \u00e9 quando a comunidade discute temas a partir de outras perspectivas, ent\u00e3o fui discutir cosmologia, mas a ideia era desformar, ou seja, trazer uma outra perspectiva, dialogar com os saberes e conhecimentos que eles e elas praticam e det\u00eam nessa comunidade e a partir do que eu trago dessa astrof\u00edsica de base europeia, desse projeto moderno\/contempor\u00e2neo, de ci\u00eancia. E fui. E, ao chegar l\u00e1, foi muito impactante. A comunidade, as crian\u00e7as, os adultos, todo mundo numa roda, ouvindo eu falar e fazendo perguntas incr\u00edveis. Ent\u00e3o essa foi a primeira visita que fiz \u00e0 comunidade, e foi uma paix\u00e3o \u00e0 primeira vista, a gente se conectou muito.<\/p>\n<p>A\u00ed fui convidado pela comunidade para pensarmos projetos que envolvessem esse di\u00e1logo entre a astronomia, essa cosmologia moderna e contempor\u00e2nea, com os ciclos de vida do quilombo. Ou seja, eles queriam de fato um di\u00e1logo intercultural, \u00e9 o que eu entendia. Nesse processo de aproxima\u00e7\u00e3o com essa comunidade, surgiu o edital do Fundo Elas, que tinha v\u00e1rios parceiros, para promover a participa\u00e7\u00e3o de meninas nas ci\u00eancias. E a\u00ed a gente resolveu, conjuntamente, criou o projeto Akotirene Kilombo Ci\u00eancia dentro da comunidade, sentados embaixo de uma figueira linda que est\u00e1 l\u00e1 dentro da comunidade.<\/p>\n<p>Discutindo o que seria esse projeto, o nome Akotirene surge da comunidade. Yamoro \u2013 que \u00e9 quilombola e tamb\u00e9m estudante aqui do curso de ci\u00eancias sociais da UFRGS \u2013 \u00e9 yiakekere, ou seja, a segunda pessoa nas rela\u00e7\u00f5es de hierarquia que existem dentro da comunidade, e trabalhou comigo por tr\u00eas anos como estudante de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Ela trouxe, nessa roda \u2013 nesse ipad\u00ea, como elas chamam \u2013, o nome Akotirene porque Akotirene \u00e9 um nome tamb\u00e9m potente ligado a Palmares. A gente fala em Zumbi, a gente fala em Dandara, mas Akotirene, dentro dessa narrativa hist\u00f3rica de mem\u00f3ria, \u00e9 tamb\u00e9m uma mulher potente, que articula conhecimento, lideran\u00e7a, resist\u00eancia, luta, aquilombamento. Ent\u00e3o como era um projeto voltado para meninas nas ci\u00eancias, Akotirene nos pareceu um nome muito potente.<\/p>\n<p>Akotirene, com k, porque tamb\u00e9m esse kilombo, Kilombo Morada da Paz, \u00e9 com K, numa proposta de desformar, de repensar os processos colonizadores. Foi da\u00ed que surgiu o nome, foi desse contexto que surgiu o projeto, a gente postulou a esse edital com o projeto Akotirene Kilombo Ci\u00eancia, que procuraria trazer as quest\u00f5es de f\u00edsica e astronomia num di\u00e1logo com os saberes, mas tamb\u00e9m pensando as rela\u00e7\u00f5es de ra\u00e7a e de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Mas ainda havia uma outra quest\u00e3o fundamental: os jovens do quilombo frequentam \u2013 frequentavam, porque agora j\u00e1 est\u00e3o fora do quilombo, est\u00e3o fazendo universidade, estou falando de 4 anos atr\u00e1s\u2026 Esses jovens frequentavam uma escola de ensino m\u00e9dio pr\u00f3ximo ao quilombo, e havia uma tens\u00e3o racial entre os jovens quilombolas negros e os jovens n\u00e3o negros dessa escola. Ent\u00e3o esse projeto foi criado tamb\u00e9m para aproximar, para trazer os jovens n\u00e3o negros da escola para dentro do territ\u00f3rio quilombola e, por outro lado, levar esses conhecimentos, saberes e fazeres do quilombo para a escola.<\/p>\n<p>E foi realmente um projeto lindo,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=qCaNEWRVtdo\">tem um v\u00eddeo<\/a>, o Instituto Unibanco, a Funda\u00e7\u00e3o Carlos Chagas, os parceiros que patrocinaram fizeram um document\u00e1rio de nove ou dez minutos, e \u00e9 muito bonito. Fizemos v\u00e1rios movimentos ao longo de um ano, tivemos financiamento, ganhamos 30 mil reais. Com esses 30 mil reais, compramos livros, compramos um telesc\u00f3pio muito bacana e fizemos observa\u00e7\u00f5es do c\u00e9u, a\u00ed trabalhamos ao longo de um ano v\u00e1rios encontros, trazendo f\u00edsica, biologia, astronomia, cosmologia, os saberes do quilombo, os jovens foram para o quilombo, fizeram viv\u00eancias quilombolas\u2026 A\u00ed tem os relatos deles e delas, o quanto isso ampliou\u2026 Apresentamos para esses jovens cientistas mulheres negras, cientistas homens negros, ent\u00e3o foi uma troca muito bacana. E a partir da\u00ed o projeto n\u00e3o morreu mais. Constru\u00edmos um laborat\u00f3rio de astrof\u00edsica dentro da comunidade. Existe a sede, a constru\u00e7\u00e3o. E a partir da\u00ed a gente seguiu. N\u00f3s \u201coficializamos\u201d esse projeto via extens\u00e3o da UFRGS e seguimos fazendo os mesmo movimentos, trabalhando educa\u00e7\u00e3o escolar quilombola, numa perspectiva da educa\u00e7\u00e3o em ci\u00eancias, com outros grupos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o desde o primeiro momento, a primeira edi\u00e7\u00e3o do projeto, a gente continuou trabalhando com outras escolas, com as crian\u00e7as quilombolas que ainda vivem no territ\u00f3rio, e a gente segue. \u00c9 um projeto pensando a educa\u00e7\u00e3o escolar quilombola, a educa\u00e7\u00e3o escolar ind\u00edgena, nessa perspectiva de trazer outras cosmologias para esse di\u00e1logo. Ou seja, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 falar da astronomia moderna e contempor\u00e2nea, mas se aproximar tamb\u00e9m, e trazer isso para a universidade, que \u00e9 o que tanto precisamos, porque existe a lei 10.639 de 2003, a lei 11.645 de 2008, que s\u00e3o leis que preveem que de fato trabalhemos isso na universidade na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, as quest\u00f5es da hist\u00f3ria e da cultura africana, afro-brasileira e ind\u00edgena.<\/p>\n<p>Esse projeto \u00e9 esse caminho, \u00e9 esse lugar, \u00e9 o lugar por onde a gente tem buscado articular as diretrizes curriculares nacionais para a educa\u00e7\u00e3o escolar quilombola, a educa\u00e7\u00e3o para as quest\u00f5es \u00e9tico-raciais, ent\u00e3o \u00e9 um movimento assim grandioso. E que d\u00e1 certo porque \u00e9 o tempo inteiro junto com a comunidade. N\u00e3o \u00e9 um projeto meu, Alan, \u00e9 um projeto nosso, da comunidade, existe uma parceria, existe uma confian\u00e7a, uma entrega muito interessante. \u00c9 realmente um di\u00e1logo intercultural como deve ser.<\/p>\n<p><strong>E ESSA TENS\u00c3O ENTRE OS ESTUDANTES NEGROS QUILOMBOLAS E OS ESTUDANTES N\u00c3O NEGROS, ISSO DEU UMA MELHORADA?<\/strong><\/p>\n<p>Existem os relatos dos pr\u00f3prios estudantes no v\u00eddeo. H\u00e1 muitos mitos, e eles desmitificaram. Essa comunidade quilombola \u00e9 uma comunidade que professa tamb\u00e9m uma espiritualidade que eles chamam de afroind\u00edgena. Existe ali uma conex\u00e3o entre as matrizes africanas, as espiritualidades ligadas \u00e0 matriz africana, ind\u00edgena\u2026 Ent\u00e3o existe toda uma especula\u00e7\u00e3o sobre o que \u00e9 isso, sobre esse jeito de ser e de viver.<\/p>\n<p>Esse encontro foi muito interessante nesse sentido, de eles entenderem o que acontecia naquele territ\u00f3rio, o que move a experi\u00eancia dessas comunidades. Os relatos dos estudantes s\u00e3o muito positivos, eles romperam, perceberam que n\u00e3o havia nada do que se dizia, do que se pensava, que n\u00e3o havia motivo para ter preconceito pela forma de vestir dessas jovens, desses jovens quilombolas, que n\u00e3o s\u00e3o inferiores por serem negros. Porque tamb\u00e9m h\u00e1 uma quest\u00e3o muito forte no Rio Grande do Sul, uma quest\u00e3o racial. \u00c9 um estado muito europeu, tem sua matriz europeia muito forte, e que trata as pessoas negras de um outro jeito, por conta do racismo na sua estrutura. Ent\u00e3o foi muito bom estabelecer esse di\u00e1logo com os estudantes e o di\u00e1logo tamb\u00e9m com os professores, porque tamb\u00e9m h\u00e1 quest\u00f5es com os professores da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. Nessa rela\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m houve professores envolvidos.<\/p>\n<p>Foi um processo de autoconhecimento e de conhecimento. As pr\u00f3prias meninas brancas, as meninas n\u00e3o negras, se deram conta do preconceito que sofriam por serem meninas, por serem mulheres. H\u00e1 algumas falas em que dizem assim, \u201cEu entendi que, por ser mulher, eu posso ser o que eu quiser, posso ser f\u00edsica, posso ser engenheira.\u201d Ent\u00e3o foi realmente um processo de desforma\u00e7\u00e3o, de desconstru\u00e7\u00e3o de preconceitos, de estere\u00f3tipos, foi uma experi\u00eancia muito positiva.<\/p>\n<p><strong>UMA DAS SUAS LINHAS DE PESQUISA MAIS RECENTES \u00c9 RELACIONADA A EDUCA\u00c7\u00c3O. POR QUE VOC\u00ca FOI EXPLORAR ESSA SENDA?<\/strong><\/p>\n<p>Quando eu chego na UFRGS, em 2014, logo entendi a pot\u00eancia que havia no Instituto de F\u00edsica, por que o Instituto de F\u00edsica tem um departamento de astronomia, um departamento de f\u00edsica, uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em f\u00edsica Capes 7 [a avalia\u00e7\u00e3o m\u00e1xima de cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o conferida pela Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior] desde que foi avaliada, um programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em ensino de f\u00edsica \u2013 quando eu cheguei era Capes 5, depois mudou para Capes 6. Por outro lado, n\u00e3o havia nenhuma articula\u00e7\u00e3o da astronomia com o ensino de f\u00edsica nem da astronomia com a divulga\u00e7\u00e3o, com o ensino nessa perspectiva. Ent\u00e3o entendi que era necess\u00e1rio fazer esse movimento.<\/p>\n<p>A astronomia entra no curr\u00edculo nacional de um jeito muito estrutural, temos astronomia desde o primeiro ano do ensino fundamental at\u00e9 o terceiro ano do ensino m\u00e9dio. E n\u00f3s, como Departamento de Astronomia, n\u00e3o est\u00e1vamos articulando a astronomia na perspectiva da educa\u00e7\u00e3o. O departamento historicamente \u00e9 muito forte em pesquisa em astronomia b\u00e1sica, temos grandes nomes da astrof\u00edsica aqui na UFRGS. Mas essa parte da educa\u00e7\u00e3o estava dormindo. Ent\u00e3o falei, \u201cn\u00e3o, a gente precisa mover, precisa construir, precisa dar uma forma\u00e7\u00e3o melhor para os estudantes de f\u00edsica, de outras \u00e1reas, precisa fazer projetos tamb\u00e9m de educa\u00e7\u00e3o em astronomia\u201d, e a\u00ed me lancei. E quando me lan\u00e7o nessa rela\u00e7\u00e3o com programas de ensino \u2013 e tamb\u00e9m foi todo um processo de prepara\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foi assim da noite para o dia \u2013 tamb\u00e9m entendo que o ensino de f\u00edsica seria um lugar potente para trazer as quest\u00f5es raciais, porque tamb\u00e9m n\u00e3o me interessava discutir as quest\u00f5es \u00e9tico-raciais sen\u00e3o numa perspectiva da estrutura. N\u00e3o queria ficar discutindo as quest\u00f5es de ra\u00e7a que chegavam para o Alan, professor, n\u00e3o queria ficar discutindo algo como se fosse quase uma psican\u00e1lise, um tratamento psicol\u00f3gico do meu caso, eu queria tratar isso como parte de um processo educativo estrutural.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o me vi nesse lugar muito confort\u00e1vel de tamb\u00e9m criar nas ci\u00eancias exatas uma discuss\u00e3o \u00e9tico-racial que passaria por quest\u00f5es hist\u00f3ricas, filos\u00f3ficas, epistemol\u00f3gicas da ci\u00eancia, do lugar da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m \u00e9 um lugar de disputa. Ou seja, eu queria orientar teses de doutorado, disserta\u00e7\u00f5es de mestrado, queria orientar alunos de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nessa quest\u00e3o \u00e9tico-racial tamb\u00e9m, n\u00e3o s\u00f3 trabalhar f\u00edsica e astronomia moderna e contempor\u00e2nea, trazer a tabela peri\u00f3dica, os elementos qu\u00edmicos, mec\u00e2nica qu\u00e2ntica, f\u00edsica de part\u00edculas. N\u00e3o, eu n\u00e3o queria s\u00f3 isso, eu queria tamb\u00e9m trazer outras quest\u00f5es. Ent\u00e3o te digo: foi tudo muito pensado, ponto a ponto. Foi arquitetado, fui construindo isso, fui me preparando passo a passo, fui escrevendo meus primeiros artigos, aprendendo metodologia. Requeria de mim tamb\u00e9m sair de uma zona de conforto, porque eu n\u00e3o tive essa forma\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o eu tive que aprender metodologia, tive que ler muito, tive que me apropriar. Claro que, como eu te contei, fui um adolescente que tive essa experi\u00eancia de anos, tamb\u00e9m participo de muitos movimentos ao longo da minha vida, de movimentos sociais, tenho essa experi\u00eancia. Mas academicamente, como \u00e1rea de pesquisa, \u00e9 algo que construo aqui, a partir do entendimento de que n\u00e3o h\u00e1 separa\u00e7\u00e3o entre ensino, pesquisa e extens\u00e3o. A divulga\u00e7\u00e3o em ci\u00eancias n\u00e3o \u00e9 pior nem melhor do que a pesquisa b\u00e1sica em f\u00edsica ou em astrof\u00edsica. O ensino de f\u00edsica, de astronomia, tamb\u00e9m tem ali uma perspectiva da pesquisa em ensino. Ent\u00e3o eu n\u00e3o hierarquizo esses movimentos, entendo como eles est\u00e3o ligados e por isso eles s\u00e3o t\u00e3o potentes.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como falar de pesquisa em f\u00edsica, em astronomia, se n\u00e3o pensarmos o contexto social do Brasil, eu n\u00e3o consigo desarticular isso, n\u00e3o consigo simplesmente colocar minha cabe\u00e7a nas estrelas. N\u00e3o, a minha cabe\u00e7a est\u00e1 nas estrelas, mas eu vivo na Terra, ent\u00e3o a gente precisa olhar para o lado. Mas foi realmente tudo pensado mil\u00edmetro por mil\u00edmetro.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m o pr\u00f3prio processo de escrita dos livros tem a ver com isso. Os livros que escrevi at\u00e9 agora est\u00e3o relacionados com esse di\u00e1logo entre ensino, pesquisa e extens\u00e3o. E dos projetos. N\u00e3o escrevi os livros da minha cabe\u00e7a, fiz v\u00e1rios anos de forma\u00e7\u00e3o de professores, de divulga\u00e7\u00e3o de ci\u00eancias, foram v\u00e1rios encontros, e ali eu percebia que as pessoas diziam: \u201colha, voc\u00ea precisa escrever, voc\u00ea precisa trazer\u2026\u201d. Ent\u00e3o foi um processo que come\u00e7ou assim, e depois eu escrevo. E eu fui fazendo. \u00c0s vezes as pessoas se assustam porque sa\u00edram tantos livros, mas \u00e9 um processo de anos, estou aqui h\u00e1 oito anos, esses livros resultam sobretudo desse processo amadurecido de oito anos no ensino, na pesquisa, na extens\u00e3o, no ch\u00e3o do territ\u00f3rio quilombola, com comunidades ind\u00edgenas, com professores.<\/p>\n<p><strong>VOC\u00ca FOI FINALISTA DO PR\u00caMIO JABUTI COM O LIVRO \u2018ANT\u00d4NIA E A CA\u00c7A AO TESOURO C\u00d3SMICO\u2019?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, eu fui finalista do Jabuti com o livro \u2018Astrof\u00edsica para educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica: a origem dos elementos qu\u00edmicos no universo\u2019. Esse foi o finalista do Jabuti 2020.<\/p>\n<p><strong>E ELE \u00c9 O QU\u00ca, EXATAMENTE?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um livro intermedi\u00e1rio, eu diria, entre a forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e a divulga\u00e7\u00e3o de ci\u00eancias, porque ele consegue dialogar com v\u00e1rios p\u00fablicos. Ele \u00e9 a minha indigna\u00e7\u00e3o pelo fato de que escondemos das pessoas essa hist\u00f3ria de que o oxig\u00eanio que respiramos, o ferro do nosso sangue, o c\u00e1lcio dos nossos ossos, esses elementos qu\u00edmicos que constituem a nossa vida, que nos conecta ao universo de um outro jeito, eles s\u00e3o formados nas estrelas. Isso n\u00e3o chega! N\u00e3o chega na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, n\u00e3o chega para professores, h\u00e1 professores de qu\u00edmica, estudantes de qu\u00edmica na universidade que n\u00e3o sabem. N\u00e3o conectam que esses elementos qu\u00edmicos que eles tanto estudam s\u00e3o formados em processos que envolvem o nascimento, a vida, a morte das estrelas, ou em processos que est\u00e3o ligados aos primeiros instantes de forma\u00e7\u00e3o do universo. Essa epopeia, essa conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria, n\u00e3o chega. Ent\u00e3o isso me indignou. Por que esconder isso das pessoas? Por que n\u00e3o contar isso de um outro jeito? Ent\u00e3o o livro \u00e9 sobre isso, \u00e9 a hist\u00f3ria t\u00e9rmica do universo, trazendo esses elementos qu\u00edmicos, conectando tudo isso, nos conectando finalmente \u00e0s estrelas, a esses processos. E a\u00ed tamb\u00e9m, claro, como eu sempre penso, essa perspectiva de fazer essas rela\u00e7\u00f5es entre o c\u00e9u e a Terra, entre as experi\u00eancias do c\u00e9u e as nossas experi\u00eancias antropol\u00f3gicas. E tamb\u00e9m para nos dar um pouco de responsabilidade cosmol\u00f3gica. Ou seja, a partir do momento em que estamos conectados com as estrelas, somos respons\u00e1veis, sim, cosmologicamente, pela preserva\u00e7\u00e3o da vida na Terra.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o livro traz astrof\u00edsica, traz tudo isso, traz hist\u00f3ria da ci\u00eancia, rompe com essa ideia de que ci\u00eancia, astrof\u00edsica, \u00e9 para poucas pessoas. N\u00e3o trabalhamos nesse discurso, nessa narrativa, com a ideia de genialidade, como se a ci\u00eancia fosse neutra, a-hist\u00f3rica, ate\u00f3rica, pura\u2026 Vamos trazendo astrof\u00edsica, mas tamb\u00e9m fazendo as pessoas pensarem o que \u00e9 ci\u00eancia, como a ci\u00eancia funciona, quais s\u00e3o esses processos, ent\u00e3o h\u00e1 essa preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu diria que o livro \u00e9 isso, a gente quer chegar em v\u00e1rios cora\u00e7\u00f5es. \u00c9 um desafio, buscar uma linguagem, trazer imagens\u2026 E tem funcionado, porque professores da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica t\u00eam lido\u2026 A minha motiva\u00e7\u00e3o primeira era que professores da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, independente da forma\u00e7\u00e3o \u2013 f\u00edsica, matem\u00e1tica, letras, hist\u00f3ria \u2013 fossem capazes de pegar aquele texto e, de algum jeito, se conectar e levar para a sala de aula. Quando escrevemos, pensei nisso. E tem dado certo. Os feedbacks que tenho recebido de professores\u2026 E a\u00ed acontecem coisas curiosas: n\u00e3o escrevi pensando, por exemplo, em estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, e onde eu chego, os estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o dos cursos de f\u00edsica t\u00eam lido muito esse livro. E eu n\u00e3o fiz pensando neles. A linguagem n\u00e3o foi para a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, por exemplo. Ent\u00e3o acho que eu cumpri um papel com esse livro. \u00c9 um livro que me deixou muito feliz.<\/p>\n<p>E a\u00ed, de novo: o que \u00e9 esse livro? \u00c9 tudo que aprendi no mestrado e no doutorado. \u00c9 tudo que fa\u00e7o desde ent\u00e3o na astrof\u00edsica b\u00e1sica. \u00c9 a s\u00edntese de processos de ensino, de pesquisa e de extens\u00e3o. A primeira palestra que dei aqui na UFRGS sobre a origem dos elementos simples foi em 2015, na Livraria Cultura, que estava lotada de pessoas. Ao terminar a palestra, muitas pessoas vieram falar comigo que estavam encantadas, que nunca tinham percebido\u2026 A\u00ed pronto, fui dar v\u00e1rios cursos na SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia), minicursos sobre astrof\u00edsica e a origem de elementos simples. Percebi que de fato havia um buraco ali. E fiz entrevistas com alunos de qu\u00edmica que apresentavam p\u00f4steres na [reuni\u00e3o anual da] SBPC. Fui de p\u00f4ster em p\u00f4ster, todos os cinco dias da SBPC, perguntando aos alunos de qu\u00edmica onde se formava o hidrog\u00eanio, onde se formava o oxig\u00eanio, e as respostas foram alarmantes. \u201cOxig\u00eanio? Isso se forma no laborat\u00f3rio\u201d. Entende? Os estudantes de qu\u00edmica estavam completamente \u00e0 parte dessa discuss\u00e3o macro. Ent\u00e3o falei: \u201cN\u00e3o, \u00e9 preciso escrever sobre isso\u201d, e a\u00ed surgiu o livro, que foi, para a minha surpresa, j\u00e1 finalista. Ficamos entre os cinco \u2013 tem top 10, top 5 \u2013, ficamos entre os cinco livros finalistas do Jabuti na categoria ensaio de ci\u00eancias. Isso me deixou muito contente. Foi o primeiro livro!<\/p>\n<p><strong>APROVEITANDO MINHA PESQUISA ERRADA, QUERO SABER MAIS SOBRE \u2018ANT\u00d4NIA E A CA\u00c7A AO TESOURO C\u00d3SMICO\u2019. AGORA ELE TEM UMA CONTINUA\u00c7\u00c3O, N\u00c9? ESSE \u00c9 MAIS DE DIVULGA\u00c7\u00c3O CIENT\u00cdFICA MESMO?<\/strong><\/p>\n<p>Os dois livros [s\u00e3o]. O \u2018Asftrof\u00edsica b\u00e1sica\u2019 \u00e9 um livro de divulga\u00e7\u00e3o de ci\u00eancias tamb\u00e9m, eu trato assim, ele n\u00e3o \u00e9 um livro did\u00e1tico, \u00e9 um texto pensado para ficar ali no interm\u00e9dio. \u2018Ant\u00f4nia e a ca\u00e7a ao tesouro c\u00f3smico\u2019 \u00e9 um livro s\u00f3 [de] texto. \u00c9 literatura juvenil\/adulta, mas \u00e9 s\u00f3 texto, n\u00e3o tem imagens. N\u00e3o sei se voc\u00ea j\u00e1 leu \u2018O mundo de Sofia\u2019 ou conhece, \u00e9 um livro s\u00f3 de di\u00e1logo. Esse livro fez muito sucesso, e eu me inspirei muito no \u2018Mundo de Sofia\u2019 quando pensei esse livro. Claro que n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa, mas eu n\u00e3o queria trazer diagramas de astronomia, imagens, era para ser uma hist\u00f3ria. Ent\u00e3o Ant\u00f4nia \u00e9 uma menina negra, uma adolescente negra do Brasil profundo, que fala \u201coxente\u201d, que fala \u201cpainho\u201d, que fala \u201cm\u00e3inha\u201d, ent\u00e3o ela tem realmente um lugar, que \u00e9 esse Nordeste, e ese cabelo [destacado na capa] carrega o segredo do universo. Realmente quis botar essa menina na capa, porque tamb\u00e9m \u00e9 isso: \u201ca f\u00edsica, a astrof\u00edsica, as ci\u00eancias exatas n\u00e3o s\u00e3o lugares para as pessoas negras\u201d, isso \u00e9 dito desde sempre. Ent\u00e3o uma menina negra, um menino negro n\u00e3o se veem nesse lugar. Ent\u00e3o essa capa j\u00e1 \u00e9 uma tecnologia social, nesse sentido, eu j\u00e1 queria ali na capa marcar esse cabelo crespo, que n\u00e3o fede, n\u00e3o \u00e9 ruim\u2026 A\u00ed tem uma fala dela no livro que diz assim: que o cabelo dela acompanha a expans\u00e3o acelerada do universo, ele aponta para o alto e carrega os segredos do universo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o livro \u00e9 uma hist\u00f3ria. E Ant\u00f4nia \u00e9 uma menina, ent\u00e3o tem curiosidades. S\u00f3 que \u00e9 uma hist\u00f3ria que vai ter mist\u00e9rio, vai ter pistas, e nessas pistas vai trazendo o sistema solar, sistemas planet\u00e1rios, a quest\u00e3o da vida. Mas ela \u00e9 uma menina negra, e isso vai ser marcado ao longo do livro nas falas dela. E a\u00ed as crian\u00e7as negras e n\u00e3o negras se identificam rapidamente, recebo tamb\u00e9m muitos coment\u00e1rios incr\u00edveis. Pais, professores, meninas, meninos, querem que eu continue a hist\u00f3ria da Ant\u00f4nia, recebo v\u00e1rios \u00e1udios, \u00e9 lindo. Professoras e professores que trabalham o livro em sala de aula, a\u00ed fazem um projeto inteiro com o livro e me mandam\u2026 \u00c9 um livro de texto, ent\u00e3o a crian\u00e7a tem que ler, tem que ser acima de 10, 12 anos.<\/p>\n<p>E a\u00ed, eu percebi, pelos relatos que chegaram, \u201cn\u00e3o, eu preciso escrever agora a hist\u00f3ria infantil ilustrada, que traga o cabelo que carregava os segredos do universo, ent\u00e3o surge \u2018Ant\u00f4nia e os cabelos que carregavam os segredos do universo\u2019, que \u00e9 realmente pensando nas crian\u00e7as abaixo de oito anos. Seis anos, cinco anos, quatro anos\u2026 Que v\u00e3o ver as imagens, e os pais v\u00e3o poder contar a hist\u00f3ria, ou as crian\u00e7as que est\u00e3o come\u00e7ando a ler. Ent\u00e3o Ant\u00f4nia 2 \u00e9 um livro ilustrado, um livro infantil mesmo. E \u2018Ant\u00f4nia e a ca\u00e7a ao tesouro c\u00f3smico\u2019 j\u00e1 \u00e9 um livro mais juvenil, exige leitura\u2026 Mas ali cada cap\u00edtulo trabalha o sistema solar, ent\u00e3o os professores podem trabalhar, com esse livro, o sistema solar inteiro, que atravessa o curr\u00edculo da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica em astronomia, podem trabalhar diversidade, as quest\u00f5es de negritude, h\u00e1 v\u00e1rias quest\u00f5es que os professores podem trabalhar. Foi feito nesse sentido, mas \u00e9 um livro de literatura infantil e juvenil. E adulto, porque n\u00e3o d\u00e1 para separar muito isso, eu n\u00e3o separo muito, mas \u00e9 um texto mais focado na juventude.<\/p>\n<p><strong>SUA EXPERI\u00caNCIA CRESCENTE EM EDUCA\u00c7\u00c3O VEM DE UMA VIS\u00c3O PESSIMISTA SOBRE A EDUCA\u00c7\u00c3O FORMAL EM NOSSO PA\u00cdS, ESPECIALMENTE NO QUE SE REFERE AO ENSINO DE CI\u00caNCIAS?<\/strong><\/p>\n<p>Eu sou sempre muito otimista. Sou egresso da escola p\u00fablica, estudei minha vida inteira em escola p\u00fablica e penso que a escola p\u00fablica no Brasil \u00e9 um territ\u00f3rio negro. Ela \u00e9 ocupada majoritariamente por pessoas negras, ainda que as epistemologias, as metodologias que chegam, os livros, n\u00e3o tragam as hist\u00f3rias negras, ind\u00edgenas. Nesse sentido, a escola p\u00fablica ainda \u00e9 um territ\u00f3rio branco. Ent\u00e3o acho que esse \u00e9 um desafio, precisamos enegrecer as metodologias, as epistemologias, precisamos de mais professores negros nas escolas, professores de ci\u00eancia, precisamos de outro jeito de abordagem da ci\u00eancia na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. Muitos desafios. Mas ainda acho que n\u00e3o h\u00e1 como mudarmos a estrutura \u00e9tico-racial do Brasil sem a escola p\u00fablica. Porque, se a escola p\u00fablica \u00e9 esse territ\u00f3rio ocupado majoritariamente por crian\u00e7as negras, ela precisa ser potencializada. E eu at\u00e9 diria que parte do sadismo, do racismo estrutural no Brasil, um dos motivos de a escola p\u00fablica ser t\u00e3o atacada, da forma que \u00e9, \u00e9 porque ela \u00e9 um territ\u00f3rio negro. \u00c9 uma consequ\u00eancia.<\/p>\n<p>Acho que temos grandes desafios agora nessa quest\u00e3o da curriculariza\u00e7\u00e3o, do sumi\u00e7o inclusive das aulas de ci\u00eancia desse curr\u00edculo\u2026 Porque a gente sabe que n\u00e3o vai sumir das grandes escolas privadas. A educa\u00e7\u00e3o privada no Brasil vai continuar tendo aulas de f\u00edsica, de qu\u00edmica, com laborat\u00f3rios, mas na escola p\u00fablica, por conta de todo o processo que estamos vivendo, corre o risco de sumirem de uma vez as ci\u00eancias. Ent\u00e3o sou otimista, mas n\u00e3o vivo alheio \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. Acho que o momento \u00e9 preocupante, de muitos desafios, mas na universidade precisamos fazer mais, articular mais, nos aproximarmos mais da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, fortalecer mais esse espa\u00e7o, estar mais junto com os professores e as professoras da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica.<\/p>\n<p>Penso que precisamos retomar esse espa\u00e7o p\u00fablico da educa\u00e7\u00e3o, da cultura. Tamb\u00e9m temos que pensar os museus de ci\u00eancias. Por exemplo, \u201cci\u00eancias na rua\u201d, \u00e9 disso que a gente precisa. A gente precisa da ci\u00eancia na rua, precisa que os estudantes negros, as crian\u00e7as negras, cheguem aos planet\u00e1rios, aos observat\u00f3rios\u2026 N\u00e3o discutimos muito isso, mas esses lugares tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o ainda frequentados majoritariamente por esse p\u00fablico.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o sou muito otimista, mas reconhe\u00e7o que h\u00e1 muitos desafios, e teremos que transpor esses desafios. E quando pensamos a educa\u00e7\u00e3o escolar quilombola, a educa\u00e7\u00e3o escolar ind\u00edgena, que s\u00e3o projetos diferenciados no meio de tudo isso\u2026 Uma coisa \u00e9 pensar a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica de um modo geral, quando fazemos um recorte da educa\u00e7\u00e3o escolar quilombola, da educa\u00e7\u00e3o escolar ind\u00edgena, e a\u00ed pensar educa\u00e7\u00e3o em ci\u00eancias com essas comunidades, [h\u00e1] mais desafios ainda. Porque muda a concep\u00e7\u00e3o do que \u00e9 ci\u00eancia, de como vamos nos relacionar com essa ci\u00eancia, para qu\u00ea ela serve, quem est\u00e1 fazendo, que projeto de ci\u00eancia, de desenvolvimento, de tecnologia, \u00e9 esse. Temos que repensar de novo nossa conex\u00e3o com o universo. Por isso \u00e9 t\u00e3o importante que essa discuss\u00e3o de um projeto de educa\u00e7\u00e3o em ci\u00eancias intercultural, de um jeito cr\u00edtico, inclusivo, democr\u00e1tico, esteja de fato estar na agenda de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>VOC\u00ca VISLUMBRA CHANCES DE A MAIORIA DA POPULA\u00c7\u00c3O BRASILEIRA DESENVOLVER INTERESSE POR TEMAS CIENT\u00cdFICOS? E, SE SIM, POR QUAIS CAMINHOS, J\u00c1 QUE VOC\u00ca \u00c9 UM OTIMISTA?<\/strong><\/p>\n<p>A primeira coisa \u00e9: isso precisa ser um valor. Precisamos ter a ci\u00eancia e a cultura cient\u00edfica como um valor. E, para isso, precisamos reformular nossas plataformas de educa\u00e7\u00e3o, como encaramos a educa\u00e7\u00e3o, a cultura e a ci\u00eancia no Brasil. Precisamos repensar a rela\u00e7\u00e3o da universidade com tudo isso, porque a universidade tem um papel fundamental, \u00e9 ela que forma professores, que forma cientistas, forma divulgadores de ci\u00eancias. No caso de divulgadores, h\u00e1 outros caminhos, mas \u00e9 sobretudo a universidade. Ent\u00e3o se a universidade tamb\u00e9m n\u00e3o se repensa e n\u00e3o se v\u00ea num lugar estrat\u00e9gico nesse processo, fica tudo muito dif\u00edcil. Precisamos de pol\u00edticas p\u00fablicas, precisamos de dinheiro, precisamos de mais planet\u00e1rios espalhados pelo Brasil, pelo Brasil profundo, nas regi\u00f5es mais dif\u00edceis precisamos de museus de ci\u00eancias, precisamos que as pessoas tenham acesso a essa cultura, a livros, precisamos ocupar as m\u00eddias. As pessoas n\u00e3o est\u00e3o nessas m\u00eddias, nessas tecnologias todas que t\u00eam surgido, a maioria n\u00e3o est\u00e1 ali ainda, isso ainda \u00e9 uma bolha, precisamos romper essas bolhas.<\/p>\n<p>Precisamos de outras linguagens, porque tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 fazer com que as crian\u00e7as cheguem, ou os jovens, as pessoas de maneira geral, outros p\u00fablicos, cheguem a esses espa\u00e7os, mas as narrativas desses espa\u00e7os tamb\u00e9m precisam ser revistas. Ent\u00e3o precisamos de outro contrato mesmo de educa\u00e7\u00e3o, de cultura, de valoriza\u00e7\u00e3o da divulga\u00e7\u00e3o em ci\u00eancias profissionalmente, precisamos de dinheiro para fazer tudo isso, precisamos rever muitas prioridades no Brasil. Ent\u00e3o acho que \u00e9 muito desse lugar. Precisamos tamb\u00e9m trazer outros p\u00fablicos, as comunidades quilombolas, ind\u00edgenas, as periferias, as pessoas LGBT, as mulheres, precisamos de fato atrair essas outras pessoas que historicamente tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e3o ocupando esses lugares de divulga\u00e7\u00e3o de ci\u00eancias, de protagonismo na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico. Tamb\u00e9m n\u00e3o valorizamos os saberes e os fazeres ancestrais dessa ci\u00eancia ancestral.<\/p>\n<p>S\u00e3o v\u00e1rias estrat\u00e9gias, e temos que ir buscando essas v\u00e1rias estrat\u00e9gias em conjunto. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 papel da universidade, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 papel da escola, os projetos p\u00fablicos e privados precisam atuar nesse sentido. \u00c9 um \u00e1rduo caminho, mas que passa por um processo de educa\u00e7\u00e3o. Penso que \u00e9 importante. Precisamos rever nossa prioridade e como vamos construir essa agenda de educa\u00e7\u00e3o, e de educa\u00e7\u00e3o em ci\u00eancias particularmente, para que isso seja um valor, seja parte da cultura. E, para isso, as pessoas tamb\u00e9m precisam se entender assim. Porque se fazemos uma ci\u00eancia para as pessoas e n\u00e3o junto com as pessoas, elas n\u00e3o v\u00e3o se perceber como parte desse processo. Ent\u00e3o precisamos de fato nos aproximar das pessoas, estar junto com as pessoas, para que elas entendam que aquele lugar tamb\u00e9m \u00e9 o lugar delas e que elas tamb\u00e9m s\u00e3o importantes para a constru\u00e7\u00e3o dessa agenda. N\u00e3o \u00e9 um lugar, uma torre de marfim, para poucas e poucos, mas \u00e9 um lugar mesmo para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>EM QUE PONTOS, DE ACORDO COM SEUS ESTUDOS E EXPERIMENTOS, A CULTURA POPULAR SE LIGA COM A CULTURA CIENT\u00cdFICA?<\/strong><\/p>\n<p>Quando olho para minhas experi\u00eancias quilombolas e ind\u00edgenas, as pessoas organizam suas vidas a partir da observa\u00e7\u00e3o, dessa rela\u00e7\u00e3o que elas mant\u00eam com a Lua, com o Sol, com os rios, com as plantas, com a terra, com a vida. Ent\u00e3o percebo que h\u00e1 um outro ecossistema a\u00ed, que os conhecimentos populares, ancestrais, trazem para n\u00f3s. Se pensarmos, por exemplo, em toda a articula\u00e7\u00e3o com o que se chama de etnobot\u00e2nica, o conhecimento das plantas, que tamb\u00e9m est\u00e1 muito presente nas culturas populares, esse conhecimento das plantas, a forma como organizamos a economia, h\u00e1 v\u00e1rios exemplos dessas minhas experi\u00eancias em que percebo que esse conhecimento produzido popularmente nas comunidades precisa chegar \u00e0 universidade, a esse lugar que canonizamos como \u00fanico lugar de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, de tecnologia.<\/p>\n<p>Voc\u00ea chega nas comunidades ind\u00edgenas, h\u00e1 tecnologia para constru\u00e7\u00e3o de casas. Casas subterr\u00e2neas\u2026 Isso n\u00e3o \u00e9 tecnologia? Um cuscuzeiro \u00e9 uma tecnologia ancestral. Eu, por exemplo, quando vou para a Bahia, meus pais n\u00e3o tiveram forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nenhuma, meu pai n\u00e3o l\u00ea, n\u00e3o escreve, eles moram na zona rural. Quando chego l\u00e1, para dormir eu preciso de um mosquiteiro. N\u00e3o podemos dormir sem mosquiteiro. E esse mosquiteiro \u00e9 uma tecnologia important\u00edssima para aquele lugar. N\u00e3o s\u00f3 o mosquiteiro, mas a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o dessas pessoas com os mosquitos, com as cobras. Entende? H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de respeito, de intera\u00e7\u00e3o, de equil\u00edbrio. Ent\u00e3o essas aprendizagens todas est\u00e3o l\u00e1 na base. Por exemplo, na cozinha de m\u00e3inha, quando fui agora em dezembro, eu vi vaga-lumes, que eu n\u00e3o tinha visto h\u00e1 muito tempo. Ent\u00e3o as hist\u00f3rias que eles contam sobre os vaga-lumes, sobre as cobras, os besouros, sobre os pernilongos, sobre inclusive o sumi\u00e7o de tudo isso, desses insetos, a rela\u00e7\u00e3o com o plantar, com o colher, entender a import\u00e2ncia da planta, da formiga\u2026<\/p>\n<p>Voc\u00ea chega nas comunidades quilombolas, escuta hist\u00f3rias incr\u00edveis sobre as formigas, sobre como as formigas se organizam, sobre a rela\u00e7\u00e3o da formiga com a chuva que est\u00e1 para vir. Tudo isso \u00e9 conhecimento, e isso, para mim, n\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a ao conhecimento cient\u00edfico, essa \u00e9 a grande quest\u00e3o. Isso n\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a. Para mim, isso \u00e9 uma pot\u00eancia, essa troca \u00e9 potente. \u00c9 potente porque aprendemos, porque formamos tamb\u00e9m estudantes, cientistas, professores de um outro lugar. E tamb\u00e9m porque esses conhecimentos tamb\u00e9m v\u00e3o chegar para essa ci\u00eancia can\u00f4nica e agitar o coreto. Essa ci\u00eancia can\u00f4nica tamb\u00e9m vai se mover, a ci\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 dada, n\u00e3o existem verdades absolutas na ci\u00eancia, \u00e9 isso que se aprende.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o quando escutamos, ouvimos essas experi\u00eancias, esses conhecimentos, aprendemos a nos rever tamb\u00e9m. N\u00e3o adianta chegar em uma comunidade quilombola ou ind\u00edgena, dizendo: \u201colha, o Sol, a Terra e a Lua, eles se movem desse jeito, funcionam assim, a Lua \u00e9 assim e assado\u201d, quando a rela\u00e7\u00e3o dessas comunidades com a Lua, por exemplo, parte de um outro lugar. Ent\u00e3o vamos precisar ouvir isso, vamos precisar entender essa rela\u00e7\u00e3o do Sol, da Terra, da Lua, do arco-\u00edris, dos fen\u00f4menos meteorol\u00f3gicos com o ciclo de vida daquela comunidade. \u00c9 parte. N\u00e3o \u00e9 como n\u00f3s, que separamos o c\u00e9u da Terra; \u201co Sol, dia; as estrelas, noite\u201d\u2026 N\u00e3o. Aquele conhecimento \u00e9 parte da vida. O tempo\u2026 E a\u00ed, claro, s\u00e3o mundos vis\u00edveis e invis\u00edveis que est\u00e3o ali articulando o tempo inteiro. Essa \u00e9 a grande aprendizagem, para mim. N\u00e3o posso chegar l\u00e1 com uma perspectiva etnoc\u00eantrica, cosmof\u00f3bica, dizendo que nada do que est\u00e1 sendo feito, dito, vivido ali \u00e9 ci\u00eancia. N\u00e3o posso fazer isso, acho que n\u00e3o tenho esse direito. O m\u00e1ximo que posso dizer \u00e9: \u201colha, aqui h\u00e1 um arcabou\u00e7o, uma linguagem outra\u201d\u2026 Porque tamb\u00e9m \u00e9 isso, eu aprendo ingl\u00eas \u2013 continuo com meu sotaque baiano, mas aprendo ingl\u00eas\u2026 Morei no Chile, aprendi espanhol, aprendi coisas do Chile, de literatura chilena, do mundo espanhol, que eu n\u00e3o conhecia, mas eu n\u00e3o deixei de ser baiano por isso. Continuo sendo baiano, continuo falando do jeito que falo.<\/p>\n<p>Precisamos entender essas trocas culturais, sobretudo, sem precisar exterminar o outro porque vive e experimenta a cultura, a ci\u00eancia e a rela\u00e7\u00e3o com a natureza de um outro jeito. E a\u00ed, claro, quando vamos para as pol\u00edticas p\u00fablicas, esse di\u00e1logo tamb\u00e9m \u00e9 importante. Quando voc\u00ea vai tratar de pol\u00edticas p\u00fablicas, voc\u00ea tem que ter di\u00e1logo. Esses di\u00e1logos interculturais \u00e9 que nos fazem chegar no consenso cient\u00edfico, no consenso humano\u2026 E a\u00ed, \u201chumano\u201d, n\u00e3o s\u00f3 s\u00f3 certos humanos, mas tamb\u00e9m essas experi\u00eancias. \u00c9 assim que percebo, \u00e9 assim que vivencio e tenho certeza de que estou do lado certo.<\/p>\n<p>Precisamos de fato aprender a ouvir essas comunidades, essas experi\u00eancias, precisamos ampliar o di\u00e1logo da divulga\u00e7\u00e3o, precisamos de fato estar na rua. A rua, a periferia, \u00e9 o centro, nesse sentido. N\u00e3o \u00e9 a periferia, a rua, no sentido de que est\u00e1 distante, mas no sentido mesmo de que a rua \u00e9 o cruzamento, a rua \u00e9 a encruzilhada, \u00e9 o lugar potente mesmo. Realmente esperan\u00e7o muito a partir dessa ideia, de que precisamos estar na rua. Ocupar a rua mesmo.<\/p>\n<p>Link para entrevista no Ci\u00eancia na Rua: \u00a0https:\/\/ciencianarua.net\/minha-cabeca-esta-nas-estrelas-mas-eu-vivo-na-terra\/<\/p>\n<p>Fonte: Ci\u00eancia na Rua &#8211; por <a href=\"https:\/\/ciencianarua.net\/author\/tiago-marconi\/\">TIAGO MARCONI<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com o astrof\u00edsico Alan Alves Brito, ganhador do Pr\u00eamio Jos\u00e9 Reis de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, publicada no Ci\u00eancia na Rua. 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