{"id":2020,"date":"2022-04-19T15:47:02","date_gmt":"2022-04-19T18:47:02","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/?p=2020"},"modified":"2022-08-04T15:48:23","modified_gmt":"2022-08-04T18:48:23","slug":"plataforma-digital-reune-mais-de-800-cartas-escritas-por-indigenas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/2022\/04\/19\/plataforma-digital-reune-mais-de-800-cartas-escritas-por-indigenas\/","title":{"rendered":"Plataforma digital re\u00fane mais de 800 cartas escritas por ind\u00edgenas"},"content":{"rendered":"<div class=\"post-description-box\">\n<p class=\"post-description\"><a href=\"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/imagem_1704221650205820.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-2021\" src=\"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/imagem_1704221650205820.jpg\" alt=\"\" width=\"999\" height=\"594\" srcset=\"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/imagem_1704221650205820.jpg 999w, https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/imagem_1704221650205820-300x178.jpg 300w, https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/imagem_1704221650205820-768x457.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 999px) 100vw, 999px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O projeto \u00e9 coordenado pela professora Suzane Lima Costa, do Instituto de Letras da UFBA, e financiado pelo CNPq.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"social-icons-box\">Centenas de cartas escritas por ind\u00edgenas que ajudam a contar a hist\u00f3ria do Brasil est\u00e3o acess\u00edveis ao p\u00fablico na <a href=\"https:\/\/cartasindigenasaobrasil.com.br\/\">plataforma digital<\/a>\u00a0desenvolvida pelo projeto \u201cAs Cartas dos Povos Ind\u00edgenas ao Brasil\u201d, coordenado pela professora Suzane Lima Costa, do Instituto de Letras da UFBA, e financiado pelo CNPq. O Brasil \u00e9 o destinat\u00e1rio de grande parte das cartas, que s\u00e3o encaminhadas tamb\u00e9m para presidentes, governadores, ju\u00edzes e outras autoridades. As den\u00fancias de crimes ambientais, invas\u00f5es de terras ind\u00edgenas e viol\u00eancia policial s\u00e3o temas recorrentes nos textos. Al\u00e9m das correspond\u00eancias, podem ser encontradas no site informa\u00e7\u00f5es sobre as trajet\u00f3rias dos ind\u00edgenas que escrevem as cartas, e que revelam uma outra vers\u00e3o do pa\u00eds a partir das suas narrativas e biografias.<\/div>\n<div class=\"rich-text-block w-richtext\">\n<p>Entre os remetentes est\u00e3o nomes como o de Davi Kopenawa Yanomami, fundador presidente da associa\u00e7\u00e3o Yanomami Hutukara, que promove a\u00e7\u00f5es nas \u00e1reas da sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o e de defesa \u00e0s terras ind\u00edgenas. A associa\u00e7\u00e3o teve uma atua\u00e7\u00e3o decisiva para conseguir de volta as amostras de sangue dos Yanomami que estavam em posse de institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas dos Estados Unidos \u2013 caso relatado em cartas escritas entre os anos de 2002 e 2003. O material foi coletado por pesquisadores na d\u00e9cada de 1960, sem consentimento pr\u00e9vio dos ind\u00edgenas. As amostras foram devolvidas apenas em 2015, por meio de um acordo de institui\u00e7\u00f5es norte-americanas com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal do Brasil.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m assinam correspond\u00eancias Nailton Muniz Patax\u00f3, Gabriel Gentil, Jairo Munduruku, Maria Yakuy Tupinamb\u00e1, Agnaldo Xukuru, Flor\u00eancio Vaz, Ailton Krenak, Maria Amaral, Graciliana Wakan\u00e3, Marcos Terena, Gersem Baniwa, entre outros. Algumas cartas t\u00eam autoria coletiva, produzida por entidades como, por exemplo, a Articula\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Brasil (APIB), e diversos povos ind\u00edgenas como os Tupinamb\u00e1, Tux\u00e1, Guarani Kaiow\u00e1, Maxakali e Xokleng.<\/p>\n<p>\u201cPercebemos que s\u00e3o muitas as pesquisas que analisam cartas SOBRE os povos ind\u00edgenas para uma compreens\u00e3o cr\u00edtica da hist\u00f3ria pol\u00edtica e liter\u00e1ria do Brasil, mas h\u00e1 uma lacuna significativa nessas pesquisas e abordagens quando o ind\u00edgena se torna o remetente das cartas, quando o ind\u00edgena \u00e9 o autor desse tipo de texto, ou seja, quando a biografia, o testemunho ou o documento hist\u00f3rico foi produzido pelo pr\u00f3prio \u00edndio. Elaboramos o projeto As cartas dos povos ind\u00edgenas ao Brasil, tanto para reverter essa lacuna, quanto para criar o primeiro acervo virtual dessas correspond\u00eancias \u2013 fundamentais hoje para apresenta\u00e7\u00e3o de uma outra vers\u00e3o do Brasil, narrada e criada pela autoria dos povos ind\u00edgenas\u201d, afirma Suzane Costa. O projeto tamb\u00e9m conta com a participa\u00e7\u00e3o de pesquisadores associados, 5 estudantes de gradua\u00e7\u00e3o, bolsistas Pibic, e 3 estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O projeto de pesquisa classificou as cartas escritas por ind\u00edgenas em tr\u00eas diferentes per\u00edodos: 1630-1680 (antes do Brasil), 1888-1930 (na na\u00e7\u00e3o Brasil) e entre 1999-2020 (no presente Brasil). A an\u00e1lise abrangeu mais de 800 cartas, sendo 664 cartas j\u00e1 selecionadas e catalogadas durante a execu\u00e7\u00e3o do projeto Autobiografias ind\u00edgenas em trinta anos de cartas (projeto financiado pelo CNPq no Edital Universal 2013), e tamb\u00e9m abarcou as cartas escritas no per\u00edodo colonial pelos ind\u00edgenas Antonio Paraopeba e Felipe Camar\u00e3o, presentes nos Arquivos da Real Biblioteca (Koninklijke Bibliotheek) da Holanda, em Haia (Nationale Bibliotheek van Nederland), e as cartas em defesa da terra, produzidas entre as d\u00e9cadas de 1888-1930. As cartas anteriores aos s\u00e9culos XX e XXI ainda est\u00e3o sendo sistematizadas e tratadas, pois algumas precisam ser traduzidas, outras colocadas em HTML. A previs\u00e3o \u00e9 que as cartas do s\u00e9culo XVII e XIX sejam publicadas no site no segundo semestre deste ano.<\/p>\n<p>O trabalho tamb\u00e9m investe na discuss\u00e3o sobre a composi\u00e7\u00e3o desse tipo de escrita para demonstrar como os povos ind\u00edgenas apresentam uma outra concep\u00e7\u00e3o de autoria: \u00e0 no\u00e7\u00e3o de povo-autor. A professora Suzane Costa ressaltou ainda que \u201ctodas as cartas escritas nas l\u00ednguas ind\u00edgenas possuem uma vers\u00e3o em portugu\u00eas. Algumas cartas, como as dos Yanomami, s\u00e3o bil\u00edngues. As cartas coletivas, produzidas por alguns grupos, s\u00e3o cartas ditadas aos ind\u00edgenas que dominam a escrita da l\u00edngua portuguesa ou aos parceiros n\u00e3o ind\u00edgenas escolarizados (antrop\u00f3logos, indigenistas, pesquisadores e ativistas), que participam das assembleias ind\u00edgenas. Cabe ressaltar que nem todos os povos ind\u00edgenas permitem a participa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ind\u00edgenas na transcri\u00e7\u00e3o dos seus documentos p\u00fablicos e preferem que o texto seja produzido com a participa\u00e7\u00e3o oral restrita da comunidade ind\u00edgena em suas assembleias e encontros\u201d.<\/p>\n<p>\u201cRessaltamos ainda que com as cartas em circula\u00e7\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel ao grande p\u00fablico conhecer uma outra vers\u00e3o do Brasil narrada e criada pela autoria dos povos ind\u00edgenas. Destacamos tamb\u00e9m que em pretendemos tamb\u00e9m criar uma exposi\u00e7\u00e3o foto(\u00e1udio)biogr\u00e1fica das cartas (que pretende ser itinerante e gratuita), em museus nacionais e internacionais e, principalmente, nas escolas que ofertam educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica\u201d, acrescenta Rafael Xucuru-Kariri , analista de Pol\u00edticas Sociais no Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, pesquisador ind\u00edgena vinculado ao projeto.<\/p>\n<p>Rafael Xucuru-Kariri convoca a imprensa, os movimentos pol\u00edticos e acad\u00eamicos para promover o site como o primeiro e \u00fanico arquivo virtual de cartas ind\u00edgenas do Brasil, fruto das pesquisas sobre autoria ind\u00edgena desenvolvidas no NEAI (N\u00facleo de Estudos das Produ\u00e7\u00f5es Autorais Ind\u00edgenas), coordenado pela professora Suzane Lima Costa. Ele refor\u00e7a que o material publicado pode ser utilizado como fonte de pesquisa, material did\u00e1tico para ind\u00edgenas e n\u00e3o ind\u00edgenas e como literatura do Brasil.<\/p>\n<p><strong>CONFIRA TRECHOS DE ALGUMAS CARTAS:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Boa Vista, Roraima \u2013 13 de Julho de 1996<\/strong><\/p>\n<p><strong>DE DAVI KOPENAWA YANOMAMI PARA BRASILEIROS<\/strong><\/p>\n<p>\u201cFaz mais de quatro meses que o Governo Brasileiro n\u00e3o controla mais o nosso Territ\u00f3rio e levas de Garimpeiros armados invadem a nossa terra, destroem a mata, abrem pistas de pouso, envenenam os rios e os peixes, matam a nossa ca\u00e7a.<\/p>\n<p>Estes invasores enganam os yanomami mais afastados, trazem doen\u00e7as graves como gripe, pneumonia, mal\u00e1ria, tuberculose e doen\u00e7as ven\u00e9reas.<\/p>\n<p>Em troca de muni\u00e7\u00f5es procuram ficar amigos de alguns jovens que depois usam armas de fogo para as brigas tradicionais e dessa maneira j\u00e1 morreram v\u00e1rios yanomami.<\/p>\n<p>Em alguns lugares chegam a amea\u00e7ar tamb\u00e9m os poucos brancos que cuidam da nossa sa\u00fade\u201d.<\/p>\n<p><strong>31 de maio de 2013<\/strong><\/p>\n<p><strong>DE NAILTON PATAX\u00d3 PARA O BRASIL<\/strong><\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s ind\u00edgenas Patax\u00f3 H\u00e3h\u00e3h\u00e3e estamos surpresos e indignados com o assassinato do nosso parente Terena Oziel, durante os excessos da a\u00e7\u00e3o policial repressiva que visou mais uma vez intimidar nossas comunidades e fazer prevalecer os interesses dos latifundi\u00e1rios invasores de nossas terras. N\u00e3o podemos ser passivos, nem muito menos coniventes, com a conjuntura atual de tentativa de destitui\u00e7\u00e3o de nossos direitos que foram assegurados constitucionalmente em 1988. Quantos anos de luta e de explora\u00e7\u00e3o, extors\u00e3o, expropria\u00e7\u00e3o e assassinatos nossos povos origin\u00e1rios j\u00e1 sofrem. \u00c9 inadmiss\u00edvel que ap\u00f3s 500 anos de coloniza\u00e7\u00e3o, continuemos sendo tratados como meros empecilhos aos interesses de grupos pol\u00edticos e econ\u00f4micos de povos que invadiram nossas terras\u201d.<\/p>\n<p><strong>Rodelas, Bahia \u2013 01 de fevereiro de 2021<\/strong><\/p>\n<p><strong>DOS TUX\u00c1 PARA BRASIL<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEu sou fruto da resist\u00eancia Tux\u00e1, um peixinho em meio \u00e0s \u00e1guas profundas do meu Rio S\u00e3o Francisco, e perten\u00e7o a um povo que sempre lutou pelo reconhecimento do nosso territ\u00f3rio ancestral. Tenho escutado o canto, j\u00e1 entoado, e constantemente seguido o ritmo do tor\u00e9 do meu Povo Tux\u00e1, ao passo que percebemos juntos os instrumentos de luta que servem de prote\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o aos direitos origin\u00e1rios, para assim contribuir no que se refere aos aparatos jur\u00eddicos e pol\u00edticos a favor da luta pela demarca\u00e7\u00e3o do Territ\u00f3rio D\u2019zorobab\u00e9\u201d.<\/p>\n<p>Fonte: UFBA \/ Edgardigital<\/p>\n<p>Foto: UFBA \/ Edgardigital<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O projeto \u00e9 coordenado pela professora Suzane Lima Costa, do Instituto de Letras da UFBA, e financiado pelo CNPq. 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