{"id":1892,"date":"2022-02-25T11:46:51","date_gmt":"2022-02-25T14:46:51","guid":{"rendered":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/?p=1892"},"modified":"2022-08-04T11:47:38","modified_gmt":"2022-08-04T14:47:38","slug":"cientistas-exploram-mundo-desconhecido-de-insetos-na-copa-de-arvores-da-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/2022\/02\/25\/cientistas-exploram-mundo-desconhecido-de-insetos-na-copa-de-arvores-da-amazonia\/","title":{"rendered":"Cientistas exploram mundo desconhecido de insetos na copa de \u00e1rvores da Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<div class=\"post-description-box\">\n<p class=\"post-description\"><a href=\"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/imagem_1502221644953175.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1893\" src=\"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/imagem_1502221644953175.jpg\" alt=\"\" width=\"999\" height=\"525\" srcset=\"https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/imagem_1502221644953175.jpg 999w, https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/imagem_1502221644953175-300x158.jpg 300w, https:\/\/cienciasbahia.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/imagem_1502221644953175-768x404.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 999px) 100vw, 999px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Estudo capturou e catalogou pela primeira vez milhares de esp\u00e9cies que vivem no topo das \u00e1rvores da maior floresta tropical do planeta.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"social-icons-box\">Se voc\u00ea j\u00e1 sabia que a biodiversidade da Amaz\u00f4nia \u00e9 enorme, saiba agora que ela \u00e9 bem maior ainda do que voc\u00ea imaginava. Em um estudo pioneiro, cientistas colocaram armadilhas para capturar insetos ao longo de v\u00e1rios andares de uma torre de 53 metros no meio da floresta amaz\u00f4nica, pr\u00f3xima a Manaus. Duas semanas depois, voltaram para ver o que tinham coletado e o resultado foi impressionante: quase 38 mil insetos, de 18 ordens diferentes, incluindo moscas, abelhas, besouros, borboletas e outros grupos menos conhecidos do grande p\u00fablico, mas de grande import\u00e2ncia para o equil\u00edbrio ecol\u00f3gico da floresta. Mais surpreendente ainda foi a distribui\u00e7\u00e3o vertical dessa biodiversidade: quase 70% dos insetos foram coletados acima dos 8 metros de altura, e cerca de 90% deles s\u00e3o de esp\u00e9cies ainda n\u00e3o descritas pela ci\u00eancia.<\/div>\n<div class=\"rich-text-block w-richtext\">\n<p>\u201c\u00c9 como se tivesse um outro continente acima das nossas cabe\u00e7as\u201d, diz ao Jornal da USP o entom\u00f3logo (especialista em insetos) Dalton de Souza Amorim, do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras de Ribeir\u00e3o Preto (FFCLRP) da USP. Ele \u00e9 o primeiro autor do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41598-022-05677-y\">trabalho<\/a>\u00a0que descreve os achados do experimento, publicado em 2 de fevereiro na revista Scientific Reports, em colabora\u00e7\u00e3o com diversos colegas do Brasil e do exterior. \u201cMais da metade da fauna de insetos est\u00e1 l\u00e1 em cima, no topo das \u00e1rvores\u201d, resume ele, num misto de empolga\u00e7\u00e3o e admira\u00e7\u00e3o pelo que descobriu. \u201cAcima de 32 metros \u00e9 uma loucura; aquilo l\u00e1 \u00e9 uma avenida.\u201d<\/p>\n<p>Os pesquisadores sabiam que a biodiversidade de insetos do dossel (o ecossistema formado pelo conjunto de copas das \u00e1rvores) seria diferente da encontrada no ch\u00e3o da floresta. Nenhuma surpresa a\u00ed. V\u00e1rios estudos desse tipo j\u00e1 foram feitos no passado, em v\u00e1rios lugares do mundo, mirando grupos espec\u00edficos de insetos ou coletando esp\u00e9cimes de forma mais gen\u00e9rica \u2014 por exemplo, por meio da fumiga\u00e7\u00e3o de \u00e1rvores, quando se aplica um inseticida a vapor para derrubar os insetos da copa e colet\u00e1-los no solo. \u201cMas isso nunca tinha sido analisado de forma t\u00e3o estruturada e sistem\u00e1tica\u201d, destaca Amorim.<\/p>\n<p>Neste caso, as armadilhas, parecidas com uma barraca de tela transparente, com 6 metros (m) do comprimento cada uma, foram instaladas em cinco andares da torre de pesquisa, com 8 metros de dist\u00e2ncia vertical entre elas (0,8, 16, 24 e 32 metros acima do n\u00edvel do solo). A torre, conhecida como ZF2, pertence ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia (Inpa) e fica na Esta\u00e7\u00e3o Experimental de Silvicultura Tropical, cerca de 60 quil\u00f4metros (km) ao norte de Manaus, numa regi\u00e3o de floresta densa e bem conservada, onde a altura m\u00e9dia da copa \u00e9 de 28 metros \u2014 mas h\u00e1 \u00e1rvores que chegam a 50 metros. (Veja a localiza\u00e7\u00e3o exata da torre pelo Google Maps,\u00a0<a href=\"https:\/\/goo.gl\/maps\/1JW2DtGNzzcXvzLp9\">aqui<\/a>.)<\/p>\n<p>Essa configura\u00e7\u00e3o in\u00e9dita permitiu aos cientistas n\u00e3o s\u00f3 fazer uma compara\u00e7\u00e3o entre o solo e a copa, mas estratificar as amostras de acordo com a altura em que cada inseto foi capturado dentro do dossel. \u201cCome\u00e7amos a ganhar uma compreens\u00e3o melhor da estrutura vertical da biodiversidade da floresta\u201d, comemora Amorim. Ficou claro que n\u00e3o s\u00f3 a fauna que circula pelo dossel \u00e9 diferente da que vive pr\u00f3ximo ao solo, mas cada \u201candar\u201d da floresta tem as suas particularidades. Nem todos os insetos que circulam a 8 metros do ch\u00e3o chegam ao topo das \u00e1rvores, e nem todos os que vivem a 32 metros de altura descem para o ch\u00e3o da floresta, por exemplo \u2014 \u201cilustrando a import\u00e2ncia da copa como um conjunto de habitats distintos, com nichos variados para insetos\u201d, escrevem os pesquisadores na Scientific Reports. A concep\u00e7\u00e3o do experimento foi do entom\u00f3logo Jos\u00e9 Albertino Rafael, do Inpa, que tamb\u00e9m assina o estudo.<\/p>\n<p>Segundo Amorim, cerca de 23% das esp\u00e9cies coletadas no experimento eram exclusivas do solo \u2014 ou seja, n\u00e3o apareceram em nenhuma das amostras de copa \u2014, enquanto que 60% estavam presentes apenas na copa. Somente 17% das esp\u00e9cies foram registradas tanto no solo (abaixo dos 8 metros) quanto no dossel (em alguma das camadas acima de 8 metros).<\/p>\n<p>As coletas ocorreram ao longo de um per\u00edodo de duas semanas, em agosto de 2017. Separando em n\u00fameros arredondados, foram capturados 16.600 exemplares de d\u00edpteros (moscas e mosquitos), 7.300 exemplares de himen\u00f3pteros (abelhas, vespas e formigas), 6.900 lepid\u00f3pteros (borboletas e mariposas), 3.940 hem\u00edpteros (cigarras, cigarrinhas, percevejos, barbeiros e outros) e 2.670 cole\u00f3pteros (besouros e joaninhas). E isso foi s\u00f3 o come\u00e7o! Depois desse primeiro esfor\u00e7o de coleta, descrito no atual trabalho, Rafael e sua equipe em Manaus continuaram montando as armadilhas na torre por mais 13 meses, resultando numa cole\u00e7\u00e3o de aproximadamente 700 mil insetos, que ainda levar\u00e1 anos (provavelmente, d\u00e9cadas) para ser triada e analisada por completo.<\/p>\n<p>A quantidade e a diversidade de insetos coletados somente nessas primeiras duas semanas j\u00e1 foram t\u00e3o grandes que at\u00e9 hoje, passados mais de quatro anos desde o in\u00edcio do experimento, os cientistas ainda n\u00e3o conseguiram identificar todas as fam\u00edlias representadas no material. Muito menos todas as esp\u00e9cies. (Lembrando que os seres vivos s\u00e3o classificados em reinos, filos, classes, ordens, fam\u00edlias, g\u00eaneros e esp\u00e9cies. N\u00f3s, seres humanos modernos, por exemplo, pertencemos ao reino Animalia, filo Chordata, classe Mammalia, ordem Primata, fam\u00edlia Hominidae, g\u00eanero Homo, esp\u00e9cie Homo sapiens.)<\/p>\n<p>O grupo que recebeu maior aten\u00e7\u00e3o foi o dos d\u00edpteros (ordem Diptera), especialidade de Amorim e Rafael. Amostras de moscas e mosquitos coletadas na torre foram compartilhadas com diversos especialistas, resultando na identifica\u00e7\u00e3o de 856 esp\u00e9cies \u2014 ou \u201cmorfoesp\u00e9cies\u201d, mais especificamente, que \u00e9 quando um organismo \u00e9 classificado com base somente em suas caracter\u00edsticas morfol\u00f3gicas, e n\u00e3o gen\u00e9ticas. A maioria foi identificada at\u00e9 o n\u00edvel de g\u00eanero, e \u00e9 prov\u00e1vel que representem novas esp\u00e9cies para a ci\u00eancia. Algumas s\u00e3o prov\u00e1veis novos g\u00eaneros, e h\u00e1 ainda as que nem tiveram suas fam\u00edlias identificadas, por falta de especialistas. Ou seja, ainda h\u00e1 muito trabalho pela frente.<\/p>\n<p>Descrever esses pequenos insetos, representados por centenas ou at\u00e9 milhares de esp\u00e9cies, \u00e9 \u201co nosso maior desafio de conhecimento da biodiversidade\u201d, diz Amorim. O pr\u00f3ximo grande projeto que ele quer colocar em pr\u00e1tica envolve o uso de uma t\u00e9cnica conhecida como barcoding de DNA, que permite identificar esp\u00e9cies rapidamente e com grande acur\u00e1cia, por meio de suas informa\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas \u2014 o que seria extremamente \u00fatil para a an\u00e1lise de grandes volumes de material biol\u00f3gico, como este coletado na torre.<\/p>\n<p><strong>IMPORT\u00c2NCIA<\/strong><\/p>\n<p>Mas por que tanto esfor\u00e7o para identificar moscas e mosquitos? A maioria das pessoas, se fosse dada a escolha, provavelmente preferiria se livrar delas e de todos os outros insetos da natureza \u2014 com exce\u00e7\u00e3o, talvez, das borboletas. Mas muito cuidado com o que se deseja, pois, sem esses pequenos invertebrados para realizar uma enormidade de servi\u00e7os ecol\u00f3gicos important\u00edssimos (como a poliniza\u00e7\u00e3o de flores e a decomposi\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria org\u00e2nica), a floresta como a conhecemos simplesmente n\u00e3o existiria. \u201cSem os insetos, o sistema colapsa\u201d, resume Amorim. Toda esp\u00e9cie tem sua fun\u00e7\u00e3o no ecossistema, e os insetos s\u00e3o, de longe, o grupo mais numeroso e mais diverso de fauna do planeta.<\/p>\n<p>Nesse sentido, conhecer e proteger a biodiversidade de moscas, formigas e besouros da Amaz\u00f4nia \u00e9 t\u00e3o importante para o futuro da floresta quanto estudar e preservar suas on\u00e7as e araras. Os resultados do estudo, segundo os autores, s\u00e3o um alerta de que a quantidade de diversidade biol\u00f3gica que se perde com o desmatamento \u2014 ou mesmo com a extra\u00e7\u00e3o seletiva de grandes \u00e1rvores, essenciais para a estrutura do dossel \u2014 \u00e9 maior ainda do que se imaginava.<\/p>\n<p>\u201cConsiderando a enorme press\u00e3o sobre a floresta prim\u00e1ria amaz\u00f4nica nos \u00faltimos anos, em alguns casos realizada at\u00e9 com apoio governamental, o entendimento de sua biodiversidade torna-se uma prioridade mais urgente. Isso n\u00e3o pode ser alcan\u00e7ado em um \u2018v\u00e1cuo de dados\u2019. Este trabalho preenche parte dessa lacuna, demonstrando uma rica e exclusiva fauna do dossel e um complexo sistema de padr\u00f5es verticais de diferentes grupos de insetos na floresta amaz\u00f4nica\u201d, escrevem os pesquisadores, na conclus\u00e3o do trabalho. E finalizam com um apelo: \u201cA\u00e7\u00f5es concertadas devem ser feitas para proteger os ecossistemas tropicais \u2013 incluindo todos os n\u00edveis de dossel \u2013 contra estressores generalizados, como mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, desmatamento, fragmenta\u00e7\u00e3o da paisagem e uso de pesticidas.\u201d<\/p>\n<p>Mais informa\u00e7\u00f5es: (16) 3315-3706, e-mail dsamorim@usp.br, com o professor Dalton de Souza Amorim<\/p>\n<p>Fonte: Jornal da USP<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudo capturou e catalogou pela primeira vez milhares de esp\u00e9cies que vivem no topo das \u00e1rvores da maior floresta tropical do planeta. Se voc\u00ea j\u00e1 sabia que a biodiversidade da Amaz\u00f4nia \u00e9 enorme, saiba agora que ela \u00e9 bem maior ainda do que voc\u00ea imaginava. 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