Aniversário de 45 anos da Embrapa Mandioca e Fruticultura




Artigo do pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura, Domingo Haroldo Reinhardt, Doutor pela Universidade da Califórnia e membro da Academia de Ciências da Bahia.

A Embrapa Mandioca e Fruticultura, única Unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) na Bahia, foi criada em 13 de junho de 1975. Localizada em Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano, a Unidade passou a substituir o antigo Instituto de Pesquisa Agropecuária do Leste (IPEAL), ocupando o mesmo espaço, vizinho à Escola Agronômica da Universidade Federal da Bahia (EAUFBA), que, a partir de 2005, foi transformada na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Após definição de seus documentos estratégicos e a realização de amplas reformas na infraestrutura do instituto, o Centro Nacional de Pesquisa de Mandioca e Fruticultura foi inaugurado em 27 de janeiro de 1977.

Na sexta-feira, dia 12 de junho, o Centro comemorou os seus 45 anos mediante um evento virtual. Não foi possível realizar a tradicional confraternização debaixo da “árvore da chuva”, uma das expoentes do belo parque que compõe o ambiente agradável do centro de pesquisa. Em função do isolamento social, a comemoração foi especial e teve como diferencial o alcance de milhares de pessoas e a participação de parceiros estratégicos nacionais e internacionais (o vídeo continua disponível no YouTube corporativo da Embrapa).

A live foi aberta com a mensagem de Celso Moretti, presidente da Embrapa, que fez uma reflexão sobre a história da Embrapa e da Unidade. Ele lembrou que, nas últimas quase cinco décadas, o Brasil deixou de ser um país importador de alimentos e hoje é um dos maiores produtores e exportadores, e de forma sustentável. Ressaltou a importante contribuição dada pela Embrapa Mandioca e Fruticultura, com geração de conhecimento e tecnologias em todas as suas áreas de atuação, desde conservação e melhoramento de recursos genéticos e biotecnologia, passando pelo manejo das culturas, do controle de pragas e doenças, até a pós-colheita e os estudos socioeconômicos. Destacou ainda, que a Unidade é referência na estratégia de efetiva priorização de demandas de pesquisa e nas ações de apoio a diversas política públicas.

O chefe-geral da Unidade, Alberto Vilarinhos, deu informações sobre a infraestrutura da Unidade, destacou a importância dos agrossistemas alimentares da mandioca e das frutas e pontuou relevantes impactos de soluções tecnológicas geradas pelo centro de pesquisa. A Unidade conta hoje com 180 empregados ativos, 267 estagiários e bolsistas e uma área de 261 hectares, sendo aproximadamente 44 mil metros quadrados de área construída e 17 laboratórios. Dada a sua missão em nível nacional, a Unidade mantém 20% dos seus pesquisadores em campos avançados localizados próximos ou dentro de importantes polos nacionais de produção e de demandas tecnológicas de mandioca, a exemplo do Noroeste do Paraná, e de frutas, a exemplo da região central de São Paulo, do Extremo Sul da Bahia e do Noroeste do Rio Grande do Norte.

Em 2018, o Brasil foi o terceiro maior produtor mundial de frutas, com 42,4 milhões de toneladas, e o 5º de mandioca, com 18,9 milhões de toneladas. As frutas, que fazem parte da missão da Unidade, somaram um valor de produção de R$ 34 bilhões e a mandioca, R$ 9,7 bilhões. Maior ainda é a sua importância social, com a geração de cerca de 5 milhões de empregos no agrossistema das frutas e um milhão de empregos, no de mandioca.

Ao longo da sua existência esse Centro Nacional de Pesquisa tem-se empenhado em cumprir a sua missão de “Viabilizar soluções de pesquisa, desenvolvimento e inovação para a sustentabilidade da agricultura, com foco em mandioca e frutas tropicais, em benefício da sociedade brasileira”. Na fruticultura, a Unidade tem focado nas frutas cítricas, banana, abacaxi, mamão e maracujá, e com intensidade menor, em manga, acerola e umbu. A seguir são pontuados alguns dos ativos tecnológicos gerados e sua inserção no agronegócio de mandioca e fruticultura:

– Foram mais de 30 variedades de mandioca desenvolvidas e disponibilizadas aos produtores brasileiros, muitas focadas na agricultura familiar nordestina, sem informações atuais sobre a real extensão da sua adoção, à exceção daquelas lançadas em anos mais recentes. A mandioca BRS Formoso, resistente à bacteriose e tolerante à seca, representa cerca de 80% da área de cultivo no Sudoeste da Bahia, a BRS Kiriris, resistente à doença da podridão radicular, ocupa quase meio milhão de hectares de cultivo no Nordeste e responde por 46% da produção em Sergipe; as variedades BRS CS01 e a BRS 420 vem sendo inseridas na grande produção de amido de mandioca no Centro-Sul do país, com produtividades cerca de 50% superiores às variedades tradicionais; e a BRS Novo Horizonte tornou-se o alicerce da indústria de amido no Recôncavo Sul da Bahia.

– A tecnologia conservacionista do plantio direto da mandioca, desenvolvida e em contínuo processo de aprimoramento pela Unidade, está sendo cada vez mais adotada no Centro-Sul do país.

– Diversas tecnologias, reunidas no projeto Reniva, tem sido disseminadas por muitos Estados brasileiros e diversos países africanos, para a produção e uso de material de plantio (manivas) de ótima qualidade genética e sanitária, com impactos expressivos na produtividade da mandiocultura. 

– Uma série de tecnologias contribuíram para o aprimoramento do cultivo, processamento e usos da mandioca, sobretudo em nível da agricultura familiar, com agregação de valor e diversificação de produtos ofertados ao mercado.

– A citricultura no Nordeste e Norte do país é assentada nas variedades geradas pela Unidade, com destaque para a cultivar Pera CNPMF D-6, que elevou o Nordeste ao status de segundo maior produtor de citros no país, representando cerca de 90% da produção de laranja da região. No grande cinturão citrícola brasileiro, envolvendo regiões dos Estados de São Paulo, Paraná e Minas Gerais, serão lançados duas variedades de laranja doce para consumo fresco, uma variedade de lima ácida Tahiti e dez novos porta-enxertos a partir deste ano, determinando às variedades-copa em uso, menor porte, maior capacidade produtiva e maior tolerância à seca e doenças. Grandes avanços têm sido alcançados na busca de medidas de controle da doença cítrica mais severa no mundo, o HLB ou greening, incluindo o desenvolvimento de uma patente de RNAi para controle do inseto-vetor da doença.

– As variedades Prata Anã e Pacovan, selecionadas e recomendadas pela Unidade, representam hoje o maior percentual da área cultivada com banana no Brasil. Diversas outras variedades geradas pela Unidade, com resistência à doença da Sigatoka-negra, foram adotadas no Norte do país após a grande disseminação da doença naquela região. A banana Princesa vem sendo adotada em muitas regiões produtoras por todo o país, com ótima aceitação pelos consumidores que muito apreciam banana do tipo maçã. 

– Destaque merecem também as ações relevantes em apoio à políticas públicas, sobretudo os Zoneamentos de Risco Climático para as culturas da banana e da mandioca, e as ações em prol da defesa fitossanitária na fruticultura, a exemplo da prevenção da introdução da raça 4 tropical da fusariose da bananeira, implementadas em conjunto com o Ministério da Agricultura e instituições internacionais. 

– O estabelecimento e a efetiva adoção de boas práticas de cultivo, adaptadas e orientadas pela equipe técnica da Unidade, contribuíram para tornar o Sudeste do Estado do Pará a região de maior produção, e o abacaxi do Estado do Tocantins um dos mais apreciados no país. Ações similares alcançaram o mesmo êxito na região semiárida de Itaberaba, BA, onde a produção de abacaxi, baseado nas técnicas geradas e adaptadas às condições ambientais regionais, se converteu no principal sustentáculo da economia.

– O abacaxi BRS Imperial, de ótima aceitação pelo consumidor, vem sendo plantado em escala crescente no Baixo-Sul e Extremo Sul da Bahia.

– O tratamento hidrotérmico pós-colheita para garantir o efetivo controle da mosca-das-frutas, viabilizou a exportação de manga para os Estados Unidos e outros países, gerando o ingresso de expressivo volume de divisas a cada ano.

– O manejo integrado da praga das moscas-das-frutas e outras tecnologias de manejo da cultura contribuíram significativamente para a produção de mamão, sobretudo no Extremo Sul da Bahia e Norte do Espírito Santo, e para tornar o Brasil um dos maiores exportadores dessa fruta. No próximo ano será lançado um novo híbrido de mamão com ótimas qualidades de produção e consumo.

– Diversas tecnologias de manejo de nutrientes e pragas contribuíram para o progresso no cultivo de maracujá, tornando a Bahia o maior produtor nacional. Pesquisas de melhoramento genético encontram-se em estágio avançado de desenvolvimento e lançamento de novos híbridos de maracujá de casca roxa.

– Sistemas orgânicos de produção de abacaxi, banana, manga e maracujá foram desenvolvidos e disponibilizados nos anos recentes, atendendo a grande demanda de produtores e consumidores.

– Diversas variedades de acerola foram selecionadas e vem sendo incorporadas à produção dessa fruta no Nordeste.

– Recursos genéticos de umbu e umbu-cajá foram coletados e diversos clones selecionados e distribuídos na região semiárida da Bahia, em conjunto com orientações técnicas básicas para o seu cultivo.

A Unidade tem tido uma forte atuação internacional ao longo da sua existência. Hoje o centro conta com oito pesquisadores integrando 23 comitês internacionais. De 2016 a 2019, foram 205 visitantes internacionais, de 36 países e de 62 instituições, sendo 133 em visitas técnicas e 72 em treinamentos. No movimento contrário, no mesmo período foram 106 viagens para 28 países realizadas por 30 pesquisadores da Unidade. A intensa interação internacional resultou na captação de R$ 7,5 milhões em sete projetos. Além do intercâmbio científico de múltiplas vias, a Unidade tem transferido tecnologias para países tropicais em desenvolvimento, com ênfase em banana e mandioca para a África, em ações que integram acordos e convênios internacionais, muitos deles envolvendo a Agencia Brasileira de Cooperação, vinculada ao Ministério de Relações Exteriores.

A pandemia do coronavírus não diminuiu o ritmo do trabalho da Embrapa Mandioca e Fruticultura. Mesmo com mais de 80% dos seus empregados em teletrabalho, a Unidade está produzindo muito. Desde meados de março foram realizados 25 eventos on-line, lançadas 16 publicações técnicas, promovidos cinco episódios de podcast Raiz & Fruto, sem mencionar a participação intensa do corpo técnico em lives de instituições parceiras e de jornalistas. Vários estudos foram conduzidos relativos aos impactos da Covid-19 sobre a fruticultura e a mandiocultura. Um edital de inovação aberta foi lançado recentemente e recebeu 52 propostas de parcerias. A Unidade tem feito uma campanha Rede Solidária, que permitiu a entrega de grande número de cestas básicas à população mais carente de Cruz das Almas, superando um volume de doação de cinco toneladas de alimentos. 

Em síntese, a Unidade tem cumprido a sua missão e tem dado pleno retorno ao investimento feito pela sociedade brasileira. E fará tudo para seguir nesse caminho.

Domingo Haroldo Reinhardt

Pesquisador A / Senior Research Scientist

Embrapa Mandioca e Fruticultura

Cruz das Almas – BA, Brasil